cocanha



; antes risos que prantos escrever, sendo certo que rir é próprio do homem [Rabelais]

a fera de Chaves

12.10.05

Na deliciosa compliação de Mário Cesariny- Horta de Literatura de Cordel, encontra-se uma história, publicada em Lisboa no ano de 1760, do género “o incrível acontece”. Como era costume da época, o longo e ponposo título explica logo de que se trata: ”Relação verdadeira da espantosa fera, que há tempos a esta parte tem aparecido em as vizinhanças de Chaves: Os estragos que tem feito, e as diligências que se fazem para a apanharem: segundo as notícias participadas por cartas de pessoas daquela Província”.
O pequeno texto foi publicado em Lisboa, pela Oficina de Joseph Filippe e inclui duas estampas muito curiosas mostrando a terrível fera que andava a devorar o gado e a atemorizar a população daquela comarca.

O pretenso naturalismo da descrição e esboço detalhado do bicho é suficiente para se atestar a fantasia que o animava - trata-se, nem mais nem menos, de uma velha manticora com ligeiras adaptações genéticas, perfeitamente compreensíveis para um animal fantástico que percorreu a Antiguidade e toda a Idade Média, para chegar ao nosso país em plena época das luzes.
A manticora, esse animal diabólico com corpo de leão, face humana e cauda mortífera com aguilhão de escorpião, era de tal forma ávido de sangue e carne humana que possuía três fileiras de dentes para melhor tragar as presas.
Ctésias de Cnido (sec.V aC- segundo informação de Plínio o Velho) foi um dos primeiros a referi-lo, localizando-o na Índia. Aparece no mapa de Hereford e vai ter longa divulgação ao longo da Idade Média.
As mutações que a manticora vai sofrendo chegam a passar por confusões com macacos como nas descrições de André Thévet, acabando acabar por servir para a classificação de um tipo de escaravelhos, de tal modo predadores, que são conhecidos como os tiranossauros dos insectos.




Neste caso, o que importa é o facto da segunda imagem da fera que atormentou a nossa terra ser muito semelhante a um monstro que Alfred Jarry incluiu no hermético César Anticristo.
Dada a distância temporal e sem mais razões para se imaginar que conhecesse este relato flaviense, o mais provável é provirem ambos de outras estampas populares mais antigas.
Quem estiver interessado, tem aqui um bom pretexto para buscar elos perdidos.


Por agora fica apenas uns excertos do relato:

Prodigiosa é a natureza na criação de seus indivíduos, assim terrestres como aquáticos, sendo a sua variedade que por mais que os naturalistas se empenharam na sua descrição, foi ela matéria muito superior às suas forças: nós porém que habitamos em o jardim da Europa qual é na opinião de muitos a nossa Espanha, admiramos o que muitos têm por natural.
Na África não costumam os naturais sair das Cidade, Vilas ou Lugares sem a escolta suficiente para a defensa de monstruosas Feras, que criadas nos incultos matos são estrago geral de quantos encontram; a Ásia não menos abundante é de animais ferocíssimos, a América bem sabemos que na sua vastidão se criam as maiores Serpentes...
(e continua dando exemplos de todo o tipo de feras e estragos, passando pelo Brasil e terríveis onças, até chegar à calma da península que, tirando os lobos, estava livre de todas estas alimárias predadoras. Mas, chegados a Chaves, a coisa muda de feição. O bicho já por cá tinha andado e agora voltara .”(...)tem causado em toda a Província danos inconsideráveis como são o ter feito vítimas da sua ferocidade a quantos arrasta aos seus encontros e forma (...) arbitra-se o número de mortes a mais de cem, e todas elas lamentáveis por serem as mais do sexo feminino... (este detalhe tem muito que se lhe diga mas não vou ser eu a fazê-lo...)
Depois, egue-se a parte mais realista que inclui identificação de temerários que se atiraram ao bicho - para além das montarias dos habitantes, foram chamados soldados a cavalo mas nada resolveram.
Um mancebo corajoso também não teve melhor sorte- “de agigantadas forças e mais animoso que afortunado, tomando por empresa vencer esta batalha se encontrou com ela, tendo por arma um bem afiado machado, e espetando-a ao passar pretendeu fazê-la despojo do seu valor, errou por falta de fortuna o golpe”.
Seguiu-se um indómito cavaleiro bem armado que deve ter ficado um tanto vexado, pois nem com uma lança lhe perfurou as conchas (sic) e muito menos serviram os tiros de fogo, pos a feral usava estas placas como escudos.
O resultado da caçada fica por saber-se. A fera continuava a monte neste ano da graça de 1760, restando ao autor apelar a Deus e confiar nas armas.
Termina com um sinal de esperança onde sobressai o poder defensivo da altura:
“... De forma que se dispõe contra este bicho uma campanha, aonde vão Soldados de pé e de Cavalo com toda a comodidade para se bloquear o monte, ou terra ou habitação, e ali se demorarem até, ou que se encontre, o que a necessidade sair ao campo o obrigue. O Céu o permita que possa efectuar-se esta diligência, dizem que o General Veiga comete esta empresa a seu filho Francisco António que com sessenta Cavalos e duzentos Infantes se vem ajudar com a mais gente.
Não sabemos o desfecho mas só se lamenta que Alfred Jarry ao cruzar-se com a imagem não tenha também dado com este nosso relato.

..........................................................................

Já gora,



Veja-se esta pacífica e divertida imagem popular russa...



Está datada de 1770 e transporta uma série de simbólica que parece alusiva ao poder e à guerra. Se o Jorge estiver interessado em traduzir, esteja à vontade.



-Horta de Literatura de Cordel. O continente submerso o grande teatro do mundo os sobreviventes do Dilúvio: monstros nacionais, monstros estrangeiros, selecção, prefácio e notas- Mário Cesariny, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

Imagens:
1- fera de Chaves Relação…)
2-Manticora- Iluminura de bestiário medieval (1220-1250- Bodleian Library, University of Oxford, (Bodley 764)
3- Alfred Jarry, Cesar Anticristo (César-Antechrist
Paris, Éditions du Mercure de France, 1895
p. 49 ; Department of Special Collections
Kenneth Spencer Research Library
University of Kansas (KSRL: A280)
4- gravura popular russa, c.1770 (Gilbert Lascaux, Le monstre dans l’art occidental, un problème esthétique, Klincksieck, Paris, 1973


  • Excelente exemplo de serviço público, esta "peça de divulgação cultural", como lhe chamaria um conhecido general de artilharia dado a coisas de livros.
    É trabalhoso, consome tempo, paciência e é dado de barato a quem o quiser ler.
    Obrigado.
    Manticora, manticora...hei-de perguntar ao flaviense autor da Origem das Espécies o que pensará ele disso...
    Cumprimentos

    By Blogger Afonso Henriques, at 10:17  
  • obrigada Afonso (espero que não leva a mal este tratamento) ehehhe

    eu gosto destas coisas e tinha por cá as imagens... não deu muito trabalho

    beijinhos

    By Blogger zazie, at 13:11  
  • Ainda estou a lamber os dedos. Estes teus textos são talvez a melhor parte da minha blogosfera.

    By Blogger Rui Manuel Amaral, at 15:45  
  • beijinhos. É muita simpatia tua. mas se estás a papar algum chocolate e não dizes nada, vais ver...

    ";O)))

    By Blogger zazie, at 17:03  
  • Hum.... Pavoroso, este russo antigo... e não estou só a falar do cirílico, bastante diferente do de hoje.

    Parece, segundo a legenda, que encontraram aquele animal na margem do rio Uler a 27 de Janeiro de 1775, e o resto são medidas numa unidade arcaica qualquer lá deles.

    Enfim, petas várias...

    By Blogger Jorge, at 16:32  
  • many, many thanks caro Jorge!
    então é mais uma teratologia do género...
    resta saber se ainda há por aí coisas destas...

    bem, o que já não há é comunas destes que até aprendiam russo antigo ":O))))


    ehehe beijinhos, estou a brincar mas admiro muito quem estuda línguas destas

    By Blogger zazie, at 16:58  
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zazie

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  • rodapé ligeiramente inútil
    • "Os animais dividem-se em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães soltos, h) incluídos nesta lista, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo, etc, m) que acabam de partir o jarrão, n) que de longe parecem moscas"
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