A verve da inteligência, o olhar filosófico e a ironia da loucura mansa, em golpes de kung-fu literários, escritos na riqueza da língua portuguesa como não se encontra em mais nenhum lado.














À queima-roupa , cosido à mão, encadernado com já não se usa, acaba de sair o livro-blogue do Dragão- um blogger que se pode dar ao luxo de ser anónimo.

É com a maior felicidade que o Cocanha tem a honra de recomendar a mais genial leitura que poderia ter aparecido nesta blogosfera.

[basta seguir o link para obter informações quanto à sua aquisição. O Dragão não lança em beberete; prefere levar as maleitas ao tapete]




zazie e musaranho coxo


Há fenómenos que nem a razão explica, quanto mais a falta dela... então não é que a militância ateia ,que se quer científica e famosa, descura o popular e as massas?

Pois é. Regressaram às origens e decidiram praticar uma espécie de censura por intuição, ou palpitação de momento. Ainda lhes tentei explicar que, usando um formato de comentários que possibilita a qualquer pessoa assinar com o nome de Desidério Murcho ou Palmira Silva, torna-se um tanto nonsense pretender identificar o verdadeiro nome do comentador.

Ilustrei a minha fraca tentativa de argumentação recorrendo ao propagado método científico, baseado nos olhinhos. Com um exemplo prático, travesti-me de Desidéria barbada e fiz-me passar por ele, mas o filósofo recusou-se a admitir a evidência e preferiu apagar-se a si próprio.

Ora farófias!
Se a via comtiana se desfaz em bruxedo, a derivação darwinista ao menos podia ser mais sintética. Bastaria esperar a comunicação no teclado: me Jane, you Tarzan!


zazie no metro - do ramo linha verde-Campo Grande/Baixa-Chiado (não confundir com o ramal de Odivelas que é bastardo)

Espíritos descontraídos e afoitos e simpatias gratuitas remoçam a vida. Não se sustentam em grandes explicações racionais, nem precisam de provas concretas. São como a aragem saudável ao andar de bicicleta.






Não era bicicleta, mas também não chegava a Harley Davidson- era a catita da “zundapp gamada” da mesnada da adolescência (parecida com esta) que ofereço como retribuição ao Pedro Arroja.




"Pécuchet tentou explicar os mitos, perdia-se na Scienza Nuova.
- Negarás tu o plano da Providência?
- Não o conheço! - disse Bouvard.
E decidiram recorrer a Dumouchel.
O Professor [Dumouchel] confessou que estava agora desconcertado com a História.
- Ela muda todos os dias. Contestam-se os reis de Roma e as viagens de Pitágoras! Ataca-se Belisário, Guilherme Tell, e até o Cid, que se tornou, graças às últimas descobertas, um simples bandido. É caso para desejar que não se façam mais descobertas, e o Instituto devia até estabelecer uma espécie de cânone, prescrevendo aquilo em que se deve acreditar!"

Gustave Flaubert, Bouvard e Pecuchet, (trad. Pedro Tamen)Ed. Cotovia, Lisboa, 1990


[recordado pelo Rui Amaral ]





A zazie acaba de ser censurada pelo filósofo de natureza murcha.


E desta vez não foi por causa da tomada de Israel pelos mouros, nem dos fetos “proto-humanos” do abortício ecológico.

Foi pela defesa da macacada.








é só clicar, que a tecnologia positivista ainda não chegou ao print screen

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E segue mais um yodelling

odl lay ee
odl lay hee ho
odl lay odl lay odl hoooo

[imagem tirada daqui ]

{copiado na íntegra, com muito abuso e muito gosto}

Em todo o caso, o convívio e as experimentações deste último século instauraram algumas incertezas no espírito das pessoas menos desatentas. Para os mais optimistas, o homem não evoluiu do macaco: estagnou nele. Para os pessimistas, não evoluiu nem estagnou: regrediu. Regressão, essa, que teve uma acelaração acentuada precisamente a partir do momento em que se apercebeu do parentesco e desatou a proclamá-lo como se de uma bandeira gloriosa se tratasse. De uma vitória memorável da luz sobre as trevas. Bem, triunfo mental, de facto, só se for do hirsutismo sobre o obscurantismo, isto é, uma derrota dos obscurantistas sepulcrais perante os hirsutos estrídulos. Até porque faz tanto sentido dizer que evoluiu do macaco como apregoar que evoluiu das amibas ou protozoários. Ou dos répteis.
Quanto a mim, acho que há de tudo: tipos que evoluem, regridem e estagnam. Geralmente, o processo até é o mesmo: começam por acreditar que evoluíram, estagnam fervorosamente nessa crença e desatam a regredir por conveniência argumentativa e doutrinária. No fundo, são ainda mais criacionistas do que os crentes a quem vituperam. Em rigor, são recriacionistas. Onde os outros vislumbram uma criação especial de Deus, bispam eles uma banal recriação do Macaco. E da mesma forma que aqueles rezam ao Pai no Céu, salmodiam estes, ululantemente, em defesa do Pai na Selva. Em resumo, para uns vale Deus sobretudo, para outros "vale tudo menos Deus." Até o Macaco.
Mas nada de confusões. Sublinho e garanto que não me importa nem contraria nada que chamem Pai ao Macaco. Ao Macaco ou à alimária totemística das suas preferências. Acho até muito justo. O parentesco é, de resto, mais que evidente. Os traços familiares são ostensivos. O intelecto, então, parece tirado a papel químico. Chamem-lhe Pai, chamem-lhe papá, chamem-lhe kota, é como lhes der mais jeito. Já a mim, sempre que lhes contenda com a veneta, podem chamar-me o que bem lhes der na simial gana. Tudo, claro está, menos irmão.
Para remate final, apenas declaro o seguinte: por mais que me guinchem e urrem, ministrando simbólicos murros na peitaça ou brandindo cascas de bananas e amendoins, continuo sem orçar minimamente onde raio reside o tão ufano e superlativo avanço - moral, cognitivo, o que seja - entre o servir de ovino nos rebanhos da religião e o servir de cobaia nos laboratórios da ciência. Direi mais, se me impuserem forçosamente à escolha, sempre prefiro que façam de mim parvo do que façam em mim experiências.

Mas não existem apenas estes energúmenos que evoluem, estagnam e regridem. Existem também os seres humanos. Filhos da terra, noivos da morte, peregrinos do Tempo abissal, que tudo gera e tudo devora. Pessoas como nós.

No Dragoscópio



Não é a voar que se emprenha, mas é assim que se engenha

















Dirigissem eles a missiva a Sua Eminência o Príncipe das Trevas, a ver se o cura de Santa Comba não chegava mais depressa ao destino.


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Adenda (22.52h)
É tão engraçado que aqui fica o comunicado na íntegra (ainda não consegui parar de rir)

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O DIABO DA VELOCIDADE


Face às notícias surgidas na imprensa de ontem sobre o comportamento rodoviário anti-social de um pároco de Santa Comba Dão, a direcção da ACA-M decidiu dirigir-se ao Papa Bento XVI, à Conferencia Episcopal portuguesa e ao Arcebispo de Viseu, pedindo à hierarquia eclesiástica que ajude aquele sacerdote a exorcizar o seu desmedido prazer pela velocidade que a potência do seu Ford Fiesta 200 ST lhe permite atingir.



A Sua Santidade o Papa Bento XVI
Sumo Pontífice da Igreja Católica

A Sua Eminência Reverendíssima Dom Jorge da Costa Ortiga, Arcebispo de Braga, Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa

A Sua Eminência Reverendíssima Dom Alfio Rapisarda
Núncio Apostólico da Cúria Romana em Portugal

A Sua Excelência Reverendíssima Dom Ilídio Pinto Leandro
Bispo de Viseu

A Sua Reverência Padre António Rodrigues
Pároco do Couto do Mosteiro


Dirigimo-nos a V. Santidade para apresentar o seguinte pleito:

O comportamento rodoviário anti-social do sr. Padre António Rodrigues, pároco do Couto do Mosteiro, em Santa Comba Dão, foi noticiado ontem, dia 21/03/07, em alguns jornais diários portugueses (Público, p. 14, “Um padre movido a fé e adrenalina”, 24 Horas, p. 21, “O padre tem uma máquina... dos diabos”).

O sr. Padre António Rodrigues orgulha-se de ser proprietário de uma “autêntica bomba”, um Ford Fiesta 200 ST de 150 cavalos de potência, adquirido “no estrangeiro”, e de “andar no picanço na A25” (competir com outros utentes daquela que já foi conhecida internacionalmente como a “estrada da morte”, tantas foram as vítimas mortais naquele trajecto).

O sr. Padre António Rodrigues, que afirma gostar da “adrenalina provocada pela velocidade” e “de sentir a potência debaixo do pé”, vangloria-se ainda de o seu automóvel chegar facilmente aos 210km/h, acrescentando que “Graças a Deus” nunca foi multado, e que, antes de padre é um ser humano.

Finalmente, admite que utiliza o seu carro para levar os jovens [das aldeias] a “dar uma volta”, e para “chegar a tempo às 3 igrejas da paróquia” (que distam entre si não mais que 13 km).

Foi com horror que a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados tomou conhecimento destas notícias. E é com natural incómodo que nos dirigimos a V. Santidade para notar que:

1) Um padre é um cidadão. Nesse sentido, não pode colocar os seus deveres de padre (chegar a horas às diferentes igrejas onde oficia, transportar jovens entre aldeias) à frente dos de cidadão. Numa palavra, não se pode colocar acima da lei da república portuguesa.

2) Um padre católico é um homem, mas antes de ser homem é padre. Caso pusesse o ser “homem normal” antes do sacerdócio, não haveria motivo para cumprir o princípio do Celibato. Ora um padre tem de dar o exemplo, porque nele o Sentido Ético é o mais importante.

3) Um padre é um predicador – não por acaso é tantas vezes também professor de Religião e Moral. Um guia espiritual que molda o comportamento e valores de outrém.

4) Um padre é, sine qua non, um modelo de virtudes – não pode ser um repositório de pecados.

O arrepiante comportamento descrito nas notícias testemunha um deslumbramento ingénuo pela velocidade, pela ilegalidade, e pela irresponsabilidade social, que é seguramente condenável pela hierarquia da Igreja católica.

Mais ainda, o sr. Padre António Rodrigues parece crer, na sua cega vaidade, que a providência divina o favorece, permitindo-lhe fugir às sanções judiciárias humanas. Como ele diz: “Graças a Deus, não [sei] o que é uma multa”.

Acreditamos que o sr. Padre António Rodrigues não esteja agindo de má fé, e acreditamos ele conseguirá arrepiar caminho e compreender quão longe se encontra hoje dos valores implícitos no sacerdócio que assumiu. Vimos assim pedir a V. Santidade que ajude este infeliz pároco a ponderar a gravidade dos seus actos e a imodéstia das suas palavras, e a resistir às tentações conjugadas da velocidade e da vanglória.

Despedimo-nos respeitosamente.

Direcção da ACA-M
Lisboa, 21/03/07

Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlimtlim?

Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar para o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo desfolhava
Por cima de mim...

Vinicius de Morais, Do Cancioneiro de Amigo



Apes/First






Olaf Breuning
2001; 2003





Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, (d'après Serafíni)













Han sido reformadas la numismática, la farmacología y la arqueología. Entiendo que la biología y las matemáticas aguardan también su avatar... (…)si nuestras previsiones no yerran, de aquí a cien años alguien descubrirá los cien tomos de la Segunda Enciclopedia de Tlön.” “El mundo será Tlön”.





O desenho inteligente #2















geometrindi & matematindi, Luigi Serafini, 2002








A Revista "aguasfurtadas" agora também está disponível em Lisboa, na livraria Da Mariquinhas, na Rua dos Cordoeiros, ao Largo de Santo Antoninho.


A propósito dos grandes problemas da humanidade trans-moderna

Os meus criacionismos de estimação #1




















Biblia Latina, Veneza, Nicolas Jenson, 1476

{a propósito da comunicação virtual}

A argúcia e os paralelos desconcertantes do “nosso” Timshel, numa janelinha de comentários


é verdade que o facto de não se ver um sorriso ou um ar brincalhão torna mais difícil saber se a pessoa está a brincar ou a falar a sério e dá lugar a mais mal-entendidos

mas, do meu ponto de vista isso pode ser uma vantagem, uma vantagem enorme

porque, face à ambiguidade, tudo vai depender do receptor, da sua disponibilidade, da sua vontade de escolher, da sua vontade de interpretar e, em consequência disso, da sua interpretação - é liberdade pura, um dos conceitos mais difíceis e mais significativos dos meus santos (Steinbeck e São Josémaria Escrivá)

O “último a saber”, a personagem mais comovente e magnânima de todas as religiões





















Niccolò Frangipane, S. José a dar a papa ao menino Jesus, c.1555 [mundo-às-avessas da sátira carnavalesca]





{sucursal VIP dos endemoninhados militantes }










Como diria o Dragão, estes devem ser dos que detestam as preces a Santa Bárbara - acham mais seguro rezar ao pára-raios.



Tal como a cidade de Deus que se apresenta como um único corpo, é na realidade dividida em três ordens: uma reza, a outra combate, e a última trabalha. Estas três ordens que coexistem não podem desmembrar-se; é sobre os préstimos de uma que se apoia a eficácia das outras duas: cada uma contribui sucessivamente para aliviar as três, e semelhante conjunto, para ser composto de três partes, não pode existir sem uma delas.


[Adalbero Laudunensis (947-1030)- Carmen ad Rotbertum Regem]

Fresco, Caríntia, Áustria, Igreja paroquial. C. 1400-1450

Consultar:Austrian Academy of Sciences- Institut für Realienkunde des Mittelalters und der frühen Neuzeit
Pesquisa:REALonline

"O que está para dentro é igual ao que está para fora"




Phallus vulvular, Ragan,Monmouthshire/ Shiva Linga, Índia


Sheela Ginga, Kilpeck, sec. XII

A garrafa de Klein ou a Retorta do Andrógino Primordial

"como engrenagens que devem encaixar com exactidão"- dizia Gourmont influenciado pela revolução industrial






[Marcel Duchamp,Object Dard; Female fig leaf]



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a propósito- Jean Clair, Marcel Duchamp, et la fin de l'art, Paris, Gallimard, 2000.