os espigões no ar, carregado o sangue
em baixo.
orquídeas a caminhar com as cabeças cruéis,
por trás dos ossos escorregava o mel negro,
a fulva devassidão mamífera,
imprimiam nas áreas actuais suas passagens
leves, delirantes, quadrúpedes, obscuras,
franjas tremiam,
uma aura amarela equilibrava o espaço animal,
um buraco de respiração, braçada de odor,
rápido.
rompiam o sono, as espadanas transparentes na pele,
uma lua transpirada,
mexiam-se pela alvura varrida,
cravados quando aplainado o ar na película,
cerimónia fervilhando de poro
na sombra, balanço ritual dos êmbolos,
a combustão dos pelos perfurando as cabeças,
coar do tempo gota
a gota, café cerrado, e depois
tubos de pedra onde o som ferve
e a qualidade ligeira e forte da matéria se transvia
Herberto Hélder, Poesia Toda
Os comentadores do Cocanha são assim, fazem estas pequenas preciosidades às escondidas e nem dizem nada a ninguém.
Não tem nada a ver mas apeteceu-me.É dedicado a uns comentadores de caixinhas, muito afeiçoados do Blasfémias
«(...)A simplicidade de análise levar-nos-ia a considerar que no espaço de discussão pública actual, acerca da imigração, racismo, extrema direita e ideias contrapostas às da esquerda clássica, continuamos exactamente como há trinta anos atrás. Como há trinta anos, não há espaço público onde seja possível discutir ideias apresentadas como extremistas e de direita.
Quanto às de esquerda, mesmo extremada, conglomeradas em grupúsculos políticos e aglutinadas no Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português, nunca houve qualquer limitação de espaço crítico e a liberdade é ampla e total (...) »
Bouvard duvidava das causas. — Do facto de um fenómeno suceder a um fenómeno conclui-se que dele deriva.
Provem-mo!
— Mas o espectáculo do universo denota uma intenção, um plano!
— Porquê? O mal está tão perfeitamente organizado como o Bem. O verme que cresce na cabeça do carneiro e o faz morrer equivale como anatomia ao próprio carneiro. As monstruosidades ultrapassam as funções normais. O corpo humano podia ser mais bem constituído. Três quartos do globo são estéreis. A Lua, esse lampadário, nem sempre está visível! Julgas o Oceano destinado aos navios e a madeira das árvores ao aquecimento das nossas casas?
Pécouchet respondeu:
— No entanto, o estômago é feito para diferir, a perna para caminhar, o olho para ver, embora tenhamos dispepsias, fracturas e cataratas.
Gustave Flaubert, Bouvard e Pécouchet, ed. Cotovia, Lisboa, 1990.


escafandro de Karl Heinrich Klingert, 1797
[o neologiismo é da autoria do "nosso" pastor do deserto]
Vale a pena seguir alguns debates, a propósito do mítico liberalismo do Marquês de Pombal- com pertinentes apontamentos do “nosso” anti-comuna nas caixinhas de comentários.
O que ainda tem mais piada é o silêncio dos especialistas, que se limitam a espreitar e rosnar ao lado.
«(...)saber se Deus quis que o homem exista para, o mais livremente possível, poder escolher amar ou se Deus quis que o homem contemplasse simplesmente o absurdo da falta total de sentido último para a sua existência é apenas o que separa a religiosidade de um católico da religiosidade de um ateu
pelo meio estão os protestantes e as probabilidades»
Nos próximos dias a navegação ficará a cargo do nosso piloto.
É provável que durante a Primavera a "postagem" também se torne mais espaçada, pois novas caçadas às gárgulas nos chamam.
....................
8 recomendações da casa (a ordem é arbitrária)
Surtos de pequenas sensações artísticas
Pensamentos filosóficos em golpes de kung-fu
Jornalismo livre, descontraído e à séria, acompanhado das sábias crónicas do José
O blogue pop de língua destravada
O underground a arrebentar de iconoclastia
Sempre...O babélico Kalebeul
E as duas grandes bases de espólio iconográfico entre as maravilhas científicas e as estranhezas artísticas of things near & far
zazie e musaranho coxo
descoberta pascal de última hora

Marranos (judeus secretos de Belmonte, Portugal) celebram a Páscoa judaica no sótão. Foto de Frédéric Brenner (1989) - retirada da Rua da Judiaria.
CAA às 16:52 Muitas heresias (36)
O Positivismo explicado aos simplórios
Dantes, nas eras religiosas, o genocídio estava a cargo de Deus. Sodomas e Gomorras eram exclusivo de Iahvé; os dilúvios também. Agora, nestas épocas positivas, graças à ciência providencial, o homem, ainda meio extasiado com os brilhos fulgurantes de Hiroshima, tomou entre mãos essas importantes tarefas.
Aleluia! Chegámos ao Sétimo Dia da Criação. Iahvé vai poder, finalmente, descansar.
Paradoxo (ou ironia) inexplicável: ao mesmo tempo que se investe de prerrogativas divinas, o fulano dito sapiens, descobre que é um macaco.
[da série- o Cocanha feito pelos seus provocadores]
[da autoria do nosso comentador Antónimo, referida ali, nos comentários]
«Gostava muito el-rei D.João III de um preto crioulo chamado João de Sá Panasco; fez-lhe muitas mercês e deu-lhe o Hábito de Santiago. Assistia sempre à mesa de el-rei diviertindo-o com a suas galanterias, e apodando os fidalgos com grande graça. Um dia apodando a todos não fez caso de um filho de certo desembargador do Paço, que também ali estava, o qual de o não agradar como aos demais, lhe perguntou: E eu, Panasco, que vos pareço? Olhou-o ele por cima do ombro, e respondeu-lhe: Vós pareceis-me Fidalgo; dando a entender que o não era. Riram-se todos e o apodado ficou de maneira que antes não ter falado»
(*Citação de Pedro José Supico, Colecção Política de Apotegmos ou ditos apudos e sentenciosos, 1720)
Corre por aí o boato da possibilidade de confirmação da regressão dos espécimes blogosféricos, o que é pura má-fé - desculpem o pleonasmo, já que a fé é, por natureza, de má índole.
Pois bem, para provar a falsidade da atoarda e fazer frente à ofensiva criacionista evangélica, que ameaça bloquear o progresso científico, acabo de ser convidado para o cargo de figura parda do temerário blogue do reino animal .
Sem querer estragar a surpresa, posso desde já adiantar aos leitores que, a partir de agora, quando por lá navegarem, para além do habitual rato, deverão também ter sempre um pedaço de queijo bem próximo do monitor.
Um grande bem-haja a Darwin e outro à intrépida cientista Palmira Silva que me dirigiu o convite, no seguimento deste manifesto .
Contamos com o vosso contributo; não se esqueçam do queijo- de preferência um bom brie de Melun.




