Mostrar mensagens com a etiqueta maldades do Hogarth. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta maldades do Hogarth. Mostrar todas as mensagens

É claro que na Vénus de crinolina, a picadela mais satírica tinha de estar ainda mais escondida.





Num pequeno quadro lateral, paralelo a outro com classificação de exotismos, sobrou piada seca para “queer” de estimação:

Monsieur Desnoyer- dançarino da moda, aparece vestido com tutus de bailarina, rodeado de borboletas e libelinhas- à delicada composição, chama-lhe Hogarth- "Insectos".





Muito antes de Dali se ter lembrado de transformar uma estátua de Vénus de Milo num arquivo de pompons de ardores e classificações estéticas, já Hogarth, em pleno século XVIII, soube fazer a sátira mais atrevida que só não teve maior projecção por ter ficado por marginalia dentro de quadro e gravuras a acompanhá-las.
Já lá iremos, mas vale a pena recordar que o tema da inspiração amorosa da Vénus grega já vinha a ser cada vez mais pretexto para se irem pintando mulheres nuas às quais se insistia em dar o nome da deusa, ainda que as poses tendessem a ser cada vez mais terrenas.

Ticiano, Vénus de Urbino, (1545-49)




Ticiano pintou uma Vénus ,acabada de acordar e com a criada ao fundo, à procura da roupa para toilette.
Uns séculos mais tarde, Manet põe os pontos nos “is” e trata-a pelo nome- a mademoiselle Olympia, conhecida no meio, por esses favores amorosos . E ela, toda galante, ergue o corpinho, enquanto balança o chinelo- não há aqui oferta passiva, ela é que desafia o voyeur.
Ticiano,Vénus e organista,

Pelo meio houve muitas variantes a caminharem cada vez mais para o prazer erótico - as Vénus de Ticiano espraiavam-se ao ar livre, distraindo o olhar dos músicos e inspirando-lhes as melodias, onde os dedos não chegavam.
Velázquez, Vénus ao espelho (1650)
Goya- maja desnuda(1797-1800)


A linha serpentinada, do ideal da Beleza, transforma a Vénus ao espelho, de Velázquez num torso de curvas e desejos revistos ao espelho, demasiado carnais para nos recordarem as cópias da estátuas clássicas e a maja “guapa” madrilena de Goya já deixou de ser um modelo nu, para se tornar numa bela rapariga despida.

Falta o caminho inverso- aquele em que são as estátuas dos modelos clássicos- os eternos nus académicos, mirados por coleccionadores, copiados até à exaustão como mais um adereço de jardim, são satirizados como acréscimo ao arrivismo estético da época.
Essas, para serem subvertidas como as mulheres bem reais que as imitavam, precisavam de se parecer de desmontar a própria noção de belo académico.

Este sempre foi o intuito mais subtil de Hogarth- satirizar os próprios conceitos e aprisionamentos de imitação francesa da arte inglesa da época, tanto quanto as modas excêntricas que de uma nobreza em que a afectação do donnaire não escondia o novo-riquismo do aburguesamento.

Numa das gravuras que acompanhava o seu tratado da Linha da Beleza (de que já falámos aqui ) Hogarth leva a ironia ao ponto de desmontar o próprio conceito de cópia da pedra que nunca poderia ter a vivacidade do natural.

A sua Vénus de Medici, arrumada naquela estância de coleccionador, com um falso Apolo tão “castrati” mais parece representar um falso pudor, sem se preocupar com a cabeleira um tanto desgrenhada para uma deusa.

Mas, antes desta Vénus de colecção, já Hogarth tinha levado muito mais longe a brincadeira.
William Hogarth, Taste in Hight Life, 1742
Num quadro encomendado por Mary Edwards de Kensinghotn— cortesã rica mas com um marido que lhe derretia a fortuna e que possivelmente servirá de inspiração para a posterior série de Marriage-à-la-Mode—, Taste in Hight Life(1742),Hogarth tem liberdade plena da patrocinadora, para satirizar sem piedade o caricato das toilettes e decoração de interiores da alta sociedade em que a própria se movia.

No meio daquele chazinho tão queer quanto os frufrus esvoaçantes das senhoras e a imitação do macaquito de salão e do pagenzinho negro, glosa-se a sátira no quadro de maior dimensões, mesmo por trás do que quase fica à mostra e nós não vemos, na lady da casa.

Num jardim povoado de cupidos, uma Vénus de Médicis posa em cima de um pedestal com a inscrição- Mode 1742. Empoleirada em tacões altos e semi-vestida com o corpete da época- toda ela se espraia numa crinolina que lhe cobre as vergonhas da frente, enquanto destapa o traseiro, virado para quem a observe no quadro.


A sátira vai ser repetida em gravura, neste caso com a variante das anáguas irem murchando e os sapatos ficando rasos, à medida que o novo classicismo estético também avançava.
George Cruikshank, from The Comic Almanack, 1850

Estas crinolinas foram propícias às caricaturas mais divertidas na época, sendo memoráveis as de George Cruikshank, Mas a irreverência sem paralelos de Hogarth daria pelo nome de kitsch na modernidade. Fez da mítica estátua e modelo de academia- uma boneca de vestir e despir- de crinolina tapando o que não se via e deixando à mostra, como se nem se desse conta, o que sempre se sonhara ver em qualquer estátua- a mulher que lá está dentro.

O efeito da anágua insuflada ainda é replicado no resto do quadro.
Enquanto uns cupidos atiçam o fogo a uma anágua (muito antes do Duchamp se lembrar do LHOOQ da Gioconda)e outros arrulham debaixo da armação, uma dama ao fundo da balaustrada, acompanhada de um anjinho, deixa cair uns panejamentos a imitar as musas clássicas. Mas o toucado realista não engana; e muito menos o seio carnudo que mostra, completando ao natural, o que a de Médicis, armada em estátua de pedestal, julga que encobre.
Consultar: - Ronald Paulson, Hogarth, volume II(Hight Art and Low; 1732-1750), Cambridge, The Lutterworth Press, 1992
- The Works of William Hogarth: In a Series of Engravings by John Trusler


mariage-a-la-mode, Hilliam Hogarth, 1745


A propósito ou não, também me apetece contar a história dos esqueletos no armário que deve ser da autoria do Hogarth.
A descoberta deve-se a Judy Egerton que escreveu um textinho bem engraçado que passo a resumir.
Como se sabe, o Hogarth era danado para apanhar os tiques dos novos-ricos afrancesados e ainda mais para imprimir aquele sentido de colapso tragicómico de todos os personagens, tão artificiais que nunca conseguiam esconder as marcas da decadência, em particular do grande mal da época - a sífilis.

Na série Mariage a-la-mode, que trata de um casamento arranjado por interesses recíprocos- o dinheiro em falta por parte do pai do noivo tão brasonado quando badalhoco, e o satus em falta que o da noiva conseguia por esta forma de suposta ascensão social.

É claro que o casório vai acabar em desgraça, começando pelas traições recíprocas, passando por assassinato e prisão, até acabar na morte da desgraçada da moça burguesa, feita condessa à pressa.

A história dos esqueletos aparece no 3º quadro da série- The Inspection- quando o visconde, acompanhado de uma prostituta, vai ao médico reclamar pela falta de resultado das pílulas para sífilis que este lhes havia receitado.

O médico é mais outro fanfarrão- um “quack doctor”, como lhes chamavam- por muito que doure as pílulas (uma delas estrategicamente colocada entre os genitais do desafortunado sifilítico) e apresente o seu tratado em cima da mesa (aberto nas extravagantes invenções de “endireita” do Monsieur de La Pillule), ele próprio testemunha nas deformações físicas a ruína da doença, efeito de “dois minutos com Vénus que resultavam em 2 anos com mercúrio”. Aquelas pernas bambas, como já o haviam referido outros estudiosos, e a facies de buldogue não enganam- a doença já lá estava entranhada e tudo o resto não passam de vaidades de curta duração- a vanitas da caveira assim o glosa.


O detalhe que tem escapado está mais escondido. A decorar o “consultório” este pseudo erudito tem um autêntico gabinete de curiosidades estapafúrdias- do tradicional corcodilo pendurado no tecto, com ovo de avestruz suspenso, aos monstinhos nascituros, nada falta. Até sobra- sobram mocassins; um chapéu de índio canadiano; um pente esquimó; banqueta dos mesmos confins e mais uma série de excentricidades em que se destaca um cabeça com fémur por trás a par de um corno de nerval, tão ameaçador quanto a varinha que furibundo visconde agita na mão.

A grande irreverência acontece em baixo abaixo- enfiados no armário, estão um esqueleto no assédio a um escorchado sob o olhar esbugalhado de uma peruca de “queer” pendurada num cabide, que mais parece doação de cabeça inteira de outro “pinguim apinocado” que morreu de espanto ao assistir à cena.

Judy Egerton confirma que a expressão “skeleton in the cupboard” só aparece no Oxford Dictionary em 1845, ainda que acrescente em nota que devia ser conhecida antes- O quadro de Hogarth data de 1745. Como notou o arguto do nosso amigo Antónimo - o mesmo é capaz de ter acontecido com a ilustração da palavra “queer”. Na sátira aos efeminados afrancesados, ao estilo mais “macarroni” de cabeleira (1761), chama-lhe ele- o “Queerinthian” e o uso da palavra como sinónimo de homossexual só é conhecida no século XIX.

Se os pinguins queer já estavam a “sair do armário” e faziam carreira social que hoje em dia é mato, as consequências das dívidas, que os favores burgueses fazem pagar ao corpo, guardavam-se bem escondidas, não fosse o negócio estragar o engano dourado da pílula.

  • Consultar: Judy Egerton, Hogarth’s Marriage a-la-mode, London, National Gallery Publications, 1997.

{subtexto da emulação dos antigos}

«The connoisseurs and I are at war, you know; and because I hate them, they think I hate Titian, and let them» (William Hogarth to Hester Thrale, in Anecdotes of Samuel Johnson 1786)
The Analysis of Beauty, plate I, 1753 (statuary yard)
O espírito satírico de Hogarth nem num tratado estético que pretendeu sério e destinado a cultivar o bom gosto da sociedade da época, conseguiu ficar à porta.
Numa réplica do diálogo socrático a propósito do Belo, ilustrado na estatuária de Clito ,Hogarth serve-se das estátuas dispostas do jardim de Sir Henry Cheere, em Hyde Parks Corner, para exemplificar a os princípios necessários à beleza da composição, mas acaba por fazer uma leitura de duplo sentido entre o texto e sátira aos críticos da época.
Apolo Belvedere

Os jogos de sedução entre deuses emparelham com as quedas em desgraça dos poderosos desse mundo greco-romano.



O Apolo de Belveder dirige-se à Vénus de Médicis,


Venus Medicis



enquanto as restantes se entregam a jogos de crueldade onde o esplendor do seu passado ficou reduzido a antiqualhas.




Cesar




Ao centro, César que está em vias de se estatelar da corda da roldana, caindo aos pés do Brutus que o assassinou;




o colosso de Hércules assoma mais alto que Laoconte, ao longe condenado pelos deuses, apenas por ter anunciado a trágica verdade.Laoconte

Estas ruínas de jardim, não passam de signos mortos, vanitas despojadas do sentido divino, prontas a serem vendidas pelo melhor preço a qualquer coleccionador. Usadas como réplicas de cópias passadas de mão em mão, os méritos dos seres que encarnavam esvaziaram-se em prol da cotação dos críticos da moda, que as preenchem com os cultos shaftesburianos mais caducos.
Enquanto no tratado vai dizendo que o Antinous ilustra em perfeição a beleza das proporções do corpo humano, com a linha serpentina, citando as próprias palavras do pintor e teórico francês Dufresnoy, na gravura que ilustra a passagem não resiste a gozar com o estereótipo em que este classicismo tinha sido convertido.
John Essex e Antinous

Quem dele se aproxima, todo empertigado, dando-lhe a mão em gesto de assédio, não é mais que John Essex, o famoso mestre de dança que Hogarth já havia satirizado no Rake’s Progres.




A Rake’s Progress, 1732–33 (2)




Com um pedante tão impertinente a admirá-lo, até o belo e divino moço, amante do Imperador Adriano, parece preferir virar-se para a Vénus de Médicis. O admirador da cópia do cânone masculino desta estância não é mais que um artista dançarino, cujos trejeitos eram tão úteis quanto a estatuária replicada para animar os salões dos possidónios londrinos.


Ver:
Ronald Paulson, Hogarth, Volume III: Art and Politics 1750-1764
*Na verdade, a estátua representada é um cópia do Hermes de Praxíteles que na altura era confundida com uma figuração de Antinous