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Foto de José Pedro, 2006

O que vale é que a Teresa não se esquece e não deixou passar o dia de S. Bartolomeu em vão.

Imprescindível irem lá e lerem "Lavoura dos Cães" , na íntegra.

E é também pelo facto desta tradição por cá ter tanto peso popular que, naquela historieta da salva oitocentista, que a Teresa se lembrou de uma boa probabilidade, como disse nos comentários- o demónio encadeado também pode estar assimilado a estes festejos que por cá se faziam.

A sedimentação de referências é vasta e mistura-se com a velha tradição do combate dos gémeo cavaleiro contra o irmão selvagem, abandonado na floresta; romance de Alexandre , ou variações mais próximas da duplicidade do contrato com o demo entre santos do deserto ;
como na lenda do Papa Silvestre II; e judengas selvagens e entremezes de autos de Floripes, muito ao gosto dos nossos ourives.

Aqui fica de novo- o detalhe do acorrentado, com a campainha que tanto afastava o demo como atraía o javardo-demoníaco do Santo Antão, mas ainda com as características escamas eriçadas da tarasca.



















E mais uns detalhes, onde aparecem figuras aos pares, como emissários recebidos por um Papa, assim como os apontamentos marginais dos festejos e cantorias de corte, ao lado de apontamentos de actividades do povo e minorias dos arrabaldes.

Ver também aqui ,a propósito dos cultos de Artemísia.

Entretanto, esta nossa salva tão rara, de artífice do Porto, também já se foi "para o estrangeiro".

Ora aqui está uma boa pergunta.

Uma padaria é isto que aqui vêem.

salva portuguesa oitocentista, colecção particular, detalhe
Sem semelhanças com normalizações salíferas da ASAE, mas bem mais parecidas com corporativismos proteccionistas do Estado Novo de inspiração medieva.
Esta tem a particularidade de incluir marranos. O que não é de admirar, dado que foram os judeus os primeiros a criá-las.judeus com círuclo amarelo, Worms, séc. XVI

E incluiu marrano com referências bem divertidas. Uma delas é mera tradição de vestuário - vê-se pelo formato da touca da padeira, idêntica às usadas pelas minorias, na Idade Média.


Mas a outra é mais subtil e aparece num desenho da chaminé do forno- tem pata.





Pata ou ganso-kosher, mais propriamente, pela brincadeira satírica que era conhecida desde a Idade Média- um judeu, como não comia porco, andava sempre agarrado à boa da pata que cuidava para a engorda. O pato ou ganso dos mitos dos barnacles- nem carne, nem peixe- bicho kosher e integral muito útil para alimentar o corpo e a alma.
misericórdia de cadeiral da catedral de Plasencia, séc. XV- judeu a abraçar um pato bem anafado
O que fazem por lá, é outra questão, tanto mais que toda a representação se passe numa casa do Norte da Europa, modelo possivelmente de gravura que o nosso ourives do Porto desencantou e que permanece desconhecido.

Pode dar-se o caso dele se ter lembrado das fiscalizações do 13º pão da dúzia, por causa das velhas trafulhices, ou pode andar por ali pãozinho mais ázimo, de Pessach disfarçado e a historieta ser outra.

Para se responder a estas e outras questões temos de voltar aos selvagens. Aos selvagens da tradição da ourivesaria- neste caso, ao selvagem do centro desta bela salva setecentista, de que começámos a falar aqui.

Until there, good night

Isto de andar às voltas com selvagens não é pêra doce. Desta vez, algo me diz que apanhei um Papa…
detalhe da salva setecentista- col. particular Quero dizer, ele é que agarra o demónio bravio mas aquele nome não engana- um Silvestre é como um Doctor Jekill e um Mister Hyde- umas vezes caçador, outras bem verdinho e caçado…
Um dia destes conto a história, que a salva é tuga mas não o será por muito tempo- nestas coisas o vil metal soa mais alto; não basta tocar campainhas para as encadear.