Na Geração do Bronze do Cinema, sedutora e perfeita a Inumana arrependeu-se pela queda do enfeitiçado cientista, ganhou alma e descobriu o amor. O que nunca saberemos é se depois disso continuou a encantar os mortais
clique no cartaz

Na Geração do Bronze, Talos- o invencível autómato de bronze que enlaçava os inimigos no corpo aquecido ao rubro- também se deixou entontecer por uma feiticeira e acabou esvaindo-se em queda fatal.








Mas nunca nos contaram se as belas jovens douradas suas irmãs sentiram compaixão ou continuaram a servir Hefesto na mais perfeita e encantadora apatia.

afigura-se mais a trabalho de tentar ferrar avestruzes ou chocar ovos sem casca...









misericórdias de cadeirais da catedral de Saint-Jean-de-Maurienne e da Igreja de Saint Seurin em Bordéus (séc. XV)

Há textos que não mereciam tanto porquedo











misericórdia cadeiral Aarschot, Bélgica, sec. XV

There is a need in all of us to have a place on store certain memories, thoughts, impulses, hopes and dreams. For some this is a physical place, for others this is a mental place, and for a few it is neither

Wong Kar-Wai


tudo é desing

tudo é relação


tão à flor da pele...

Daquelas perfeitas para lhes servirem incondicionalmente

Pourquoi ne dis tu rien Marie ?…Dis quelque chose…Pourquoi ne marches tu pas ?…Marche un peu que je les voie remuer…que je les voie vivre…tes petites bottines…



… Il s'agenouilla, baisa mes bottines, les pétrit de ses doigts fébriles et caresseurs, les délaça…Et, en les baisant, les pétrissant, les caressant, il disait d'une voix suppliante, d'une voix d'enfant qui pleure:

Oh Marie…Marie…Marie…tes petites bottines…donne-les-moi, tout de suite…tout de suite…tout de suite…je les veux tout de suite…donne-les moi…











All it is missing is a soul!



Não é assim, Dr. Rotwang?

Isto é só para que não pensem que o Cocanha é um blogue fora de moda, incapaz de se juntar às grandes questões da humanidade e profundíssimos debates blogosféricos que as mesmas têm gerado.
Aqui fica a actualização dos testes narciso-napoleónicos em falta.

É fácil de responder- basta dizer: sim, não, talvez, depende das circunstâncias. Só não pode é ficar calado porque a liberdade de opinar é isso mesmo- dizer qualquer coisa e rápido; quando não souber, inventa.

1- Como vamos de liberalismo em época natalícia- muito, pouco ou assim assim?

2- Já assumiu seu jacobinismo hoje? Se não o fez, de que está há espera?

3- E de tortura? Como vamos em matéria de tortura de guerra? Ainda não experimentou ou está a fugir com o rabo à seringa?

4- Em matéria de heterofobia- está com dúvidas; já assumiu, ou deixa-se invadir por uns inconfessáveis desvios homofóbicos e sente-se discriminado por não o gritar à janela?

5- E pronto. Só faltava o grande hit dos últimos tempos- usa crucifixo por cima da cristaleira do óle de entrada ou prefere a televisão na cozinha?








Marcel tu est mort, c’est la vie...

earth to earth, ashes to ashes, dust to dust





e tu também minha Drag Queen

somos meros simulacros que fazem passar as efemérides de mão em mão


Man: I wish those bloody bells would stop.
Wife: Oh, it's quite nice dear, it's Sunday, it's the church.
M: What about us atheists? Why should we 'ave to listen to that sectarian turmoil?
W: You're a lapsed atheist, dear.
M: The principle's the same. The Mohmedans don't come 'round here wavin' bells at us! We don't get Buddhists playing bagpipes in our bathroom! Or Hindus harmonizing in the hall! The Shintus don't come here shattering sheet glass in the shithouse, shouting slogans-
W: All right, don't practice your alliteration on me.
M: Anyway, when I membership card and blazer badge back from the League of Agnostics, I shall urge the executive to lodge a protest against that religious racket! Pass the butter knife!

militante católico apanhado esta manhã no local de trabalho a favorecer um elemento gay das forças militarizadas.














Pergunta o caríssimo professor, a quem enfadam exercícios espirituais demasiado gratuitos, como se chega lá .




Saberá, por certo, meu caro perito em língua portuguesa que a necessidade aguça o engenho. Pois, caso se lhe enfade o palato com tantos sonhos natalícios e a querela das púbicas gelosias teime em o atormentar, siga o exemplo do expedito bobo, que se a mais não afoitou as papilas foi porque se lhe entravou a mãozinha.










militante católico apanhado esta noite a instrumentalizar as forças de segurança em pleno Rossio



...bem os resultados do concurso da voz masculina com mais pinta deram mais numa lista de bons exemplos que propriamente num vencedor

Ainda assim, fazendo as contas, parece que ganhou o W.S. Burroughs.
Mas seria de uma enorme injustiça não escolher um vencedor entre os exemplos das vozes mais patetas. Nessa categoria sim, temos o grande Jerry Lewis com o mais histérico primeiro lugar.


L’abbaye de Thélème, Gargantua, chapitre LVII


Toute leur vie était dirigée non par les lois, statuts ou règles, mais selon leur bon vouloir et libre-arbitre. Ils se levaient du lit quand bon leur semblait, buvaient, mangeaient, travaillaient, dormaient quand le désir leur venait. Nul ne les éveillait, nul ne les forçait ni à boire, ni à manger, ni à faire quoi que ce soit... Ainsi l'avait établi Gargantua. Toute leur règle tenait en cette clause :
FAIS CE QUE VOUDRAS,
car des gens libres, bien nés, biens instruits, vivant en honnête compagnie, ont par nature un instinct et un aiguillon qui pousse toujours vers la vertu et retire du vice; c'est ce qu'ils nommaient l'honneur. Ceux-ci, quand ils sont écrasés et asservis par une vile sujétion et contrainte, se détournent de la noble passion par laquelle ils tendaient librement à la vertu, afin de démettre et enfreindre ce joug de servitude; car nous entreprenons toujours les choses défendues et convoitons ce qui nous est dénié.
Par cette liberté, ils entrèrent en une louable émulation à faire tout ce qu'ils voyaient plaire à un seul. Si l'un ou l'une disait : " Buvons ", tous buvaient. S'il disait: "Jouons ", tous jouaient. S'il disait: " Allons nous ébattre dans les champs ", tous y allaient. Si c'était pour chasser, les dames, montées sur de belles haquenées, avec leur palefroi richement harnaché, sur le poing mignonne- ment engantelé portaient chacune ou un épervier, ou un laneret, ou un émerillon; les hommes portaient les autres oiseaux.
Ils étaient tant noblement instruits qu'il n'y avait parmi eux personne qui ne sût lire, écrire, chanter, jouer d'instruments harmonieux, parler cinq à six langues et en celles-ci composer, tant en vers qu'en prose. Jamais ne furent vus chevaliers si preux, si galants, si habiles à pied et à cheval, plus verts, mieux remuant, maniant mieux toutes les armes. Jamais ne furent vues dames si élégantes, si mignonnes, moins fâcheuses, plus doctes à la main, à l'aiguille, à tous les actes féminins honnêtes et libres, qu'étaient celles-là. Pour cette raison, quand le temps était venu pour l'un des habitants de cette abbaye d'en sortir, soit à la demande de ses parents, ou pour une autre cause, il emmenait une des dames, celle qui l'aurait pris pour son dévot, et ils étaient mariés ensemble; et ils avaient si bien vécu à Thélème en dévotion et amitié, qu'ils continuaient d'autant mieux dans le mariage; aussi s'aimaient-ils à la fin de leurs jours comme au premier de leurs noces.

Em 1543 Rabelais também imagina uma sociedade perfeita na abadia de Thélème, local onde ninguém suportaria as contingências materiais, vivendo os eleitos na maior das harmonias estéticas e sociais em que a vontade individual se funde com a colectiva.
Só existia uma regra- a do livre arbítrio; a ausência de leis- cada um faria sempre o que bem entendesse. Thélème é um espaço reservado a elites humanistas e pode ser lida como uma sátira à organização monástica da época. Mas fora dela também fica todo o seu século XVI, sendo excluídos os indignos de habitarem um lugar em que a vida se encontra no seio do vazio.
E com esta provocação de nonsense foi o primeiro a não a levar a sério e a mostrar o primeiro passo para a distopia.


Serve o exemplo para a abertura oficial da época natalícia aqui no Cocanha com a brevíssima declaração de princípios: não se conte com lamentos ao consumismo; adulteração da quadra e correlativa denúncia da hipocrisia pela necessidade de toda esta quinquilharia para recordarmos os pobrezinhos.
A razão é simples- tal como Rabelais não acreditamos que o vazio se preencha de perfeição por se retirarem as adulterações que tendem em persistir.
De qualquer forma, as melhores maravilhas são também as mais patetas que ainda nos conseguem aprazer– as luzinhas a cintilar na cidade, acompanhadas daquela estereofonia de jingle bells; o frenesim das compras e embrulhos de papel sempre igual; a mesa bem regada para esquecer o enjoo das rabanadas e o anjinho satisfeito por estar sentado em cima da agulha no topo da árvore de Natal. E até rimou.

que psico-roçansos são meros trinados de literatura. Deixe de parte as Salomés, que tinham manias de serralho de bandeja e diga lá se não lhe agradava mais esta singela e casta crinoline
















Robert Gligorov
crinoline
1997

se não sair timoneiro há-de sair comentador















já vamos em adiantada época natalícia e nem um post sobre o assunto...



e o governo não faz nada


Vergonha!

vergonha!


assim está bem, professor ?

















A história da Ciência teve uma longa tradição de misto de fábula com pesquisador excêntrico ansioso por descobrir os mais bizarros fenómenos na natureza.
Muitas lendas medievais têm derivações pseudo-científicas levando inclusive à adopção de terminologia fantástica já existente como se falou aqui .
O campo da concepção e criação natural, bem como as marcas de seres vivos que se poderiam detectar no reino mineral é um dos mais profícuos a este propósito.
Os ovos, por exemplo, tanto poderiam ser chocados por uma mulher que vivia na lua, fazendo sair deles homens gigantes, como relatou e ilustrou Licostenes (1518-1561), na crónica dos prodígios , publicada em 1557
Mas também poderiam recordar os ovos com faces humanas estampadas inicialmente descritos por Ambroise Paré (1510-90). O ovo em questão que deixou documentado em gravura nitidamente semelhante à lendária Górgona da mitologia, conta o médico que o encontrou no dia 15 de Março de 1569 na casa de um advogado de Baucheron em Autun, na Borgonha para grande susto da que uma criada que deparou com ele quando se preparava para confeccionar uma omeleta.

A descoberta foi prontamente enviada pelo barão de Senecey ao monarca. A história vai passando de mão em mão e encontramo-la no tratado dos monstros de Fortunio Liceti (De Monstris, 1665) Este já descreve como um monstro sem pescoço, com cabeça horrível de olhos sem pálpebras, um nariz de leão, dois cornos de carneiro, nitidamente por o confundir com monstro de Turim que Liceti havia apresentado ao lado do famoso ovo.

Como salientou Roger Caillois, “o fantástico parte da solidez do mundo natural para melhor a derrubar”. As datações precisas, o nome dos personagens e, neste caso, até o monarca e o lugar onde se encontrava na altura- em Metz, como é acentuado por Liceti e até o próprio capítulo em inseriu esta versão monstruosa da Górgona-“exemplo do excesso de semente” afastando-a da companhia dos relatos dos possessos por demónios que também trata.
Esta tónica no excesso de realidade que tende a inserir na probabilidade banal do quotidiano o evento mais inverosímil vai permanecer em estudos científicos bem mais recentes que aparentemente deveriam ser alheios a estas velhas fantasias de raízes medievais.

O caso das “pedras mentirosas” de Beringuer e os testemunhos fósseis dos “micro-homens” de Okamura, ocorridos respectivamente no século XVIII e em pleno século XX por um laureado Nobel.

No século XVIII ainda não se sabia o que eram os fósseis. Uns julgavam tratar-se de ossos de criaturas que tinham morrido na torrente do Génesis, outros que eram pedras, tal como as lendárias que continham sombras que imitavam os seres vivos.
No entanto, o grande problema era a existência desses “ossos” que não possuíam semelhanças com os seres vivos conhecidos. É aí que entra a teoria de Adam Beringer (da faculdade de medicina de Würtzburg) que defende que estas pedras teriam sido moldadas por Deus, de forma a radiarem a sua sabedoria através de imagens.
O problema é que nos meios científicos a rivalidade também tem uma longa tradição. Não foi preciso esperar muito para que as palestras deste excêntrico estudioso acordassem alguns inimigos mais pragmáticos. Roderick e Eckart, respectivamente um mestre de geografia e um conselheiro bibliotecário da mesma universidade, conhecendo a montanha onde Beringer costumava catar os tais fósseis, decidiram pregar-lhe um terrível partida- “plantaram” por lá uma série de pedras com as marcas mais estapafúrdias de bicharocos. Beringer tinha por hábito pedir a garotos da terra que lhe fossem procurar os tais espécimes e não tardou muito para estes o presentearem com as famosas descobertas.
O nosso sábio de tal modo ficou entusiasmado que vá de publicar textos e desenhos das ditas, atestando a veracidade da sua teoria “teo-fóssil”.
O entusiasmo de Beringer era recíproco ao dos rivais a plantar pedras. A próxima leva de descobertas ainda foi mais fantástica que as rãs e pássaros gravados- tratava-se nada mais nada menos que raios solares, estrelas, cometas e caracteres em latim e hebraico que o nosso cientista prontamente mandou traduzir. E com grande resultado pois lá se encontrava a veríssima assinatura de Jeová em língua primordial.
A história teve requintes de malvadez e nonsense, quando os próprios sabotadores se arrependeram do disparate e tentaram convencer Beringer do engano. Foi pior emenda que o soneto pois este tomou como mais um testemunho de inveja e tentativa de descrédito.
O final foi terrível para todos. Quando se deu conta do engano, o nosso crédulo cientista tentou comprar todas as edições do seu trabalho ao mesmo tempo que denunciou publicamente a tramóia. Acabaram por ser expulsos da universidade e os estudos que, com tanta ingenuidade e igual paixão Beringer havia iniciado, nunca mais foram retomados. Em 1767, passados vnte e sete anos após a sua morte, o editor decidiu fazer nova edição dos estudos tornando-se um sucesso humorístico do género.

Sorte madrasta não teve Okamura ainda que a confusão entre fantasia e espírito de pesquisa também não tenha deixado crédito por mãos alheias.
Chonosuke Okamura, paleontologista reputado e especialista em fósseis e vários tipos de invertebrados como algas e espécimes do período Terciário, já tinha uma série de importantes trabalhos publicados até que lhe deu para acreditar numa espectacular descoberta. Através do microscópio “detectou” uma série de fósseis com micro-criaturas de tamanho idêntico ao de uma aspirina.
Variavam entre patinhos, mini-passarinhos, micro-plantas, micro-peixes, um mini-camelo, um micro-gorila, idênticas miniaturas mas em forma de dragões, cãezinhos domésticos de tamanho de bibelot fossilizado e, mais espantoso ainda, espécimes de figuras mínimas de homenzinhos que conseguia ver no microscópio, levando-o logo a convencer-se de ter descoberto uma nova espécie pré-histórica: o Homo sapiens miniorientalis. Os estudos foram acompanhados de centenas de fotografias e descrições, de tal modo curiosas como um fóssil em que diz que se encontram dois homenzinhos nus, virados um para o outro, agitando as mãos harmoniosamente, obviamente numa dança semelhante às dos nossos dias.
E “os nossos dias” a que ele se referia decorriam no ano de 1983, tendo o espantoso cientista ganho o prémio Nobel de 96 na área de biodiversidade. Evidentemente que não o mereceu por estas imaginosas descobertas mas por verdadeiros estudos que na área da biologia igualmente elaborou.A verdade é que a imaginação é dos estímulos mais importantes para tudo. E quando não se acerta num ramo, há sempre hipótese de uns pequenos desvios inofensivos para outros. A Ciência é uma actividade racional, todos o sabemos, mas o dogma da razão pura e desapaixonada é capaz de ser fantasia menos proveitosa que estas visões tão pitorescas.

imagens:
1- mulher a chocar ovos na lua-Lycosthenes
2 e 3 Ambroise Paré, Cabeça de medusa encontrada num ovo e monstro de Turim (tatado dos Monstros e dos Prodígios), 1545
4 e 5- Variação do mesmo ovo por Ulysse Aldrovandi e Liceti
6 e 7- fósseis de Beringer
8- faces dos micro-homens de Okamura (1983?)
9- micro-homem da espécie Homo sapiens miniorientalis segurando um bebé
10- taxonomia de Okamura

bibliografia: Barbara Stafford, Body Criticism. Imaging the Unseen Enleightenmeent Art and Medicine, The Mit Press, Cambridge/Massachussetts, London/England, 1992