cocanha





                        antes risos que prantos escrever, sendo certo que rir é próprio do homem [Rabelais]

Um Valloton para intervalar

19.5.08

Felix Valloton,Cour de ferme, 1912














doçaria conventual e mongalhada à solta

17.5.08

ateuzinho ignoradoateuzinho desconhecidoateuzinho ignorado da parte de baixoateuzinho desconhecido, a tentar ser reconhecidoateuzinho desconhecido à boleiaateuzinho que faz lembrar alguém




Desde o Bode Esperança fechou estamine que a bodegada órfã anda desesperada. Como os outros gurus não albergam esta praga de pulgas sem cão, vá de andarem para aí, feitos zombie, a largar cacaganitas por tudo quanto é sítio.
Vino Puro- monges ensacados em pele de vinho, misericórdia do cadeiral de Ciudad Rodrigo (autoria de Rodrigo Alemão)E depois, os crentinhos virtuais entraram numa de cenobita e devem estar tão ocupados com as receitas de papos de anjo e barriguinhas de freira, que nem se dão conta do chiqueiro.


O que nos vale é que o Dragão se encarrega da mama cientóina dos que os alimentam- a grande treta pseudo-intelectual, onde bebem todos os ludvígaros, fiolhosos, vitalinhos muchos e restantes bufarinheiros de venda a retalho da velha doutrina jacobina.


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Os dragões também se lambem por uma boa sereia

16.5.08




e os tritões ajudam à festa, agarrando-as pela barbatana

misericórdia do cadeiral da catedral de Bristol
Estes decidiram instalar-se no cadeiral da catedral de Bristol para tão estranha e lúbrica patuscada.
O homem alado tem tudo de Mothnam avant la lettre e nada do voador de Avicena, já que sentidos não lhe faltam e patas com garras demoníacas ainda menos.
O wyvern que se baba e que até parece estar a ajudar a preparar o repasto, também não deveria ser nenhum dragão heráldico de Oxford a banhos.

Alvitra-se a hipótese do o terrível selvagem de Orford ter-se encontrado com o espírito do dragão wyvern, do rio homónimo, saciando apetites nas longas horas de salmodia de coro, em fantasias paralelas às dos pescadores que ainda hoje por lá passam dias inteiros a tentar apanhar uma boa truta.


Este homem está feliz

13.5.08



 www.acrossindonesia.com/Irian_Photo_Gallery.htm
porque já meteu o IRS























E você?




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fitas com fitnas

12.5.08

Quando eles vêm com aquelas listas de mercearia das “visões democráticas e seculares” e mais a “liberdade laica”
e os contratos de cidadania com o “actual paradigma civilizacional, onde as religiões têm de se circunscrever à esfera individual”; tudo isto por causa do armagedão, a gente sabe que não é frete- são fitas








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Já que estamos com a mão na massa


"eu fico triste que me chamem embolomático; eu não sou embolomático; o verdadeiro artista joga limpo, minha querida, chamar-me embolomático é falso e é uma coisa que faz quase arrebolar as pedras da calçada"












dediquemos também esta canção à série humorística das Jaquinadas no telhado



aproveitemos a escorregadela prá barrela






















Com as calças na mão

11.5.08



É sempre muito engraçado assistir ao moralismo hipócrita escarranchado no meio do chão.
domestic spanking- Sherborne Abbey
E nem vou contar o que se passou. Mas tentem perguntar ao bacano do Tim , esse paladino da defesa dos mais fracos, e das alianças com todo o bicho-careta contra os uber-facistas, o que aconteceu para fechar os comentários do blogue.

Eu prefiro gozar o prato com o musaranho.



(e não, nem foi nada com ele, salvo seja...)

...........
Acrescento (12-5- 19-30h):
Estas bravas declarações aconteceram
aqui Como o grande chefe das brigadas de denúncia a qualquer inofensiva brincadeira com narizes já apagou tudo, fica entregue à vossa imaginação o que lhes tirei dito.
É assim a esquerdalhada inquisidora. Como as crianças não dão voto, lá têm públicas virtudes para a novilíngua e vícios privados para o resto.

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é preciso ter dedinho


As mãos também vêem, já dizia Gregório de Nysse , razão pela qual estão ligadas à linguagem.E é por isso que há dedinhos e gestos que despacham muito rapidamente o interlocutor. Estou-me a lembrar de um do meio do Bush que já causou danos na blogosfera.

Mas existem para todos os gostos.

cano da água, mosteiro de Alcobaça
Os útilitários- nem sempre apontar é feio- pode servir para informar que é por ali que passavam as canalizações da água do refeitório dos monges de Alcobaça
S. Gregório de Valadolid ou o apontar a dedo sem se saber a quem, de S. Gregório de Valadolid.
punho fechado, claustro dos Lóios de Évora a mão fechada, dissimulada que guarda segredo. Com esforço ainda pode passar por prática de esoterismo.
morder a mão Lóios de Évora


"Se apontas com um dedo és apontado por outros três".

E, se não sabes ter tino nas mãos, morde o próprio braço.
bascanionOs defensivos contra o mau olhado:

Este bascanion, divindade pagã com a cornucópia da abundância e o gesto de enfiar o dedo na boca para lançar saliva contra quem se aproximasse com mais intenções, sintetiza-os a todos.

Foi parar aos Jardins do Duque de Palmela, depois oferecido a Leite de Vasconcelos e está hoje nos reservados do Museu Nacional de Arqueologia. Deve ter sido peça romana, a que mais tarde se acrescentou a legenda em letra gótica: “ninguém não me olhe, e quem me olhar tomo-o".

Os bascania eram uma espécie de magos, destinados a evitar a entrada do mal do local que protegiam. Entre os romanos fazem parte da variedade de lares familiaris, que também eram destinados aos nichos das entradas das portas.

Quem o demo toma uma vez, sempre lhe fica o jeito1
O jeito afeiçoa-se ao gesto. O excesso de visão, provoca o mau olhado; o bascanion tem o dom do espelho. Toma-o e esconjura-o com o gesto do índex erecto enfiado na boca, expelindo o feitiço de volta a quem o lançou. A saliva neutraliza o olhar venenoso, tal como cura a ferida do atacado. Lançada como desprezo e desfeita, ostenta a admoestação.

É claro que nos dias que correm é mais seguro uma caçadeira em casa que dedinhos de cornadura, gravados nas árvores, ou mesmo estes bascania no jardim. Mas, ainda assim, sempre faziam melhor figura que os leões de casa estilo emigrante projectada pelos engenheiros-arquitectos.

E vou mais longe, se os gestos são linguagem,até ficavam muito bem em S. Bento e em Belém.
........................................................
1 Cfr: José Leite de Vasconcelis, Opúsculos, vol V, Etnologia, (parte I) Imprensa Nacional, 1983.

intervalo campestre

9.5.08

guarda-rios e galeirão

guarda-rios e galeirão
Paulo Pascoal (1998, cibachrome, 640x800mm)

Este vai copiado na íntegra

8.5.08




Sem dom nem piedade

«Pai, a sensata razão é uma dádiva dos deuses aos homens e a maior riqueza que estes podem ter.»
- Sófocles,"Antígona"


Ateu é uma palavra intrínseca e originariamente grega, constituída pelo prefixo de negação A e pela raiz Theos (deuses ou Deus).
Actualmente, no português, "ateu" significa "aquele que nega a existência de Deus", "incrédulo", "ímpio". Mas na origem, a-theos tinha um outro significado mais eloquente: "abandonado de deuses ". Tanto quanto o ímpio, o ateu era o abandonado pelo divino.
A mitologia hebraica diz-nos que Ihavé criou Adão, o primeiro homem, à sua imagem e semelhança. O Génesis conta-nos como o Divino enformou o humano - a partir do barro. Em contrapartida, os gregos são, por um lado, bastante menos narcisistas e, por outro, bastante mais prudentes. Entendem que o antropos, formado no cosmos, foi transformado pelos deuses. De que forma? Recebendo destes a razão prudente ou sensata. Na citação em epígrafe, o conceder da dádiva traduz o outorgar duma "segunda natureza" (fusiwsis). A relação do humano ao divino reflecte, pois, ao tempo de Sófocles, uma benfeitoria, mais que uma criação. O vínculo que daí resulta não é do criado ao criador, mas do agraciado ao benfeitor. Daqui derivará, séculos adiante, qualquer coisa como a "graça de Deus", mas não nos dispersemos.
Em qualquer dos casos - quer o Divino opere a partir da matéria inerte (insuflando-lhe forma e vida), quer metamorfoseie a partir do animal existente (concedendo-lhe inteligência)-, há um vínculo de gratidão, um dever (ficar em dívida) que se instaura. Uma noção de hierarquia, de pertença a uma ordem, de fidelidade a um princípio sagrado, fundamento de vida, contentamento e razão.
Ora bem, o ateu é aquele que se desvincula desta hierarquia ancestral. À proveniência contrapõe a conveniência: não é mais o que provém, mas o que lhe convém. Ele e o mundo. Não se perspectiva, pois, a partir dum passado, duma linhagem, que se projecta, através dum presente num futuro: pelo contrário, submete todo o passado e toda a possibilidade futura à sua visão obsessiva do presente. Essa, basicamente, é a sua impiedade - a impietas latina -, que se traduzia, como se traduz, pela "falta de cumprimento dos deveres para com os pais, a pátria ou os deuses". Ninguém pense que a mania caíu do céu aos trambolhões ou brotou de geração espontânea.
De facto, o ateu entende que nada deve aos pais, à pátria ou ao divino, porque tudo adquire e engendra através da ciência e da razão. Acredita cegamente que, através dessa formidável panóplia, pode agora corrigir o passado, normalizar o presente e determinar o futuro. O resultado mais eloquente dessa psicoculinária pudémos constatá-lo com o stalinismo. A mesma dinâmica mental preside à fermentação desossada e fétida da sequela actual.
A certa altura, no fim da Antígona, Creonte clama, em desespero: "Ah, razão que desrazoa!... (Iw frenwn dysfrónon)"
Ora, o ateísmo contemporâneo é precisamente um arrazoado - uma razão feita mero frenesim. Ou seja, mero exercício desligado e autofágico da "frhen" - a "frhen" que significava no grego original, o pensamento, aalma, a vontade; e donde a "fronesis" - prudência, sensatez, juízo, inteligência de uma coisa, etc. Esta "frhenon" é, na citação em epígrafe, a tal concessão divina e suprema riqueza do homem. E esta "frhenon" que "disfronon", esta "razão que desrazoa"(esta imprudência insensata que arrasta ao desastre) é aquilo de que Creonte se lamenta. Exactamente a mesma a que eu agora chamo de "razão frenética". Em rigor, uma espécie de parafrenia infecto-contagiosa.
Por outro lado, acresce um detalhe que cava toda uma diferença imensamente relevante: é que a antiguidade situava esta "prudente razão" no coração, enquanto a ciência moderna a confina ao cérebro. Quer dizer, aquilo que o divino plantou no coração do homem, o cientistóide apaga, clona e fecha na mioleira do tecnopiteco avançado.
Esta "razão frenética", podemos então dizê-lo, é uma "razão fora do sítio - uma razão sem coração; um simples frenesim cerebral. Não admira a sua frieza réptil e, ainda menos, o alcance impiedoso dos seus maníacos.


O problema é que estes energúmenos que descrevo não se restringem apenas às várias e mais ou menos estrídulas seitas de convulsionários ateístas da paróquia. Não, o abismal é que as próprias e diversas religiões estão cada vez mais infestadas... de ateus.

Pelo Dragão

Grandes textos draconianos

6.5.08



(...)De resto, a acção dos aptos coligados desenvolve-se em duas vertentes simultâneas e conjuradas: reforçar a sua coligação, de modo a transformar a sua aptidão em super-aptidão; e promover a dispersão, a desagregação - a limite, o confinamento em células individuais - da restante humanidade. Assim, à medida que se consolida e sofistica, a coligação dos aptos vai adaptando o mundo à sua conveniência - um mundo que lhe convém amorfo, mero plasma manobrável e manipulável, estrita matéria. Isto é, desligado de todo e qualquer antes -cultural, sobretudo-, tanto quanto de qualquer depois, mas apenas refém perpétuo dum presente cercado e sitiado pelas obscuridades do passado e pelos horrores e terrores do futuro. Para esse efeito, arfa, zumbe, silva e resfolega toda um propaganda constante, opressiva e miriafónica.
Omnipresente. Compete-lhe desligar as pessoas. Reduzi-las a células presidiárias, meros compostos de células mecânicas. Este Des-ligar das pessoas consiste numa guerra permanente, envenenadora e insidiosa sobre tudo o que possa congregá-las ou re-ligá-las. Daí, entre outras, a campanha devidamente orquestrada e premeditada contra a "re-ligião". Porque estorva e dificulta a "des-ligião".
É neste enquadramento que se situam todos os quistos efervescentes de propaganda artificialmente empolada e superiormente dirigida, como são, por exemplo, as organizações LGTB ou as Ligas de Frenéticos e Convulsionários Ateístas. São tropinhas de choque do mercado e da indústria, autómatos-biscateiros programados e segregados pela coligação "super-apta". O seu público alvo está bem definido: as gentes naquela faixa etária mais vulnerável, crédula e dúctil - a adolescência (que agora, ainda para mais, se pretende que vá dos 4 aos 40). Os seus postos de emissão são bem visíveis: mass-media, escolas, universidades, meios "artísticos". Sabem o básico: se cantarem a contento, sobem a rigor. Reproduzem-se por coopção, mimese e osmose. Obedecem à regra do enxame.
Lembro-me de ouvir dizê-lo, ao vivo, ao Agostinho da Silva: "Idade das Trevas? Vocês vão ver o que é a Idade das Trevas."
Voltando, entretanto, à pergunta inicial - mais aptos em quê? Ora, está bem à vista: na predação. Intra-específica.
»


Vá até lá e leia-o na íntegra.

3 anos de Cocanha

4.5.08

Três aninhos derivados de um engano técnico, apenas por teimosia de querermos criar um template. Depois da parvoeira feita, arrastando, sem se saber, a pista pelas janelas de comentários, lá tivemos de carregar o blogue às costas.

Assim sendo, e como já vinham mais uns tantos de trás, aqui fica uma reposição repescada do limbo do velho Janela Indiscreta.

Divirtam-se, que o lema da casa é rabelaisiano.
O musaranho e eu, só temos a agradecer as visitas conhecidas e às desconhecidas. O número será sempre um mistério, já que nunca tivemos medidor dessas coisas. Preferimos aquele rodapé taxionómico e ligeiramente inútil, como apraz no reino da Narragónia.

JAVARDINHAS A FIAR

Muito recato e mãos ocupadas sempre foi receita aconselhada a mulher solteira ou casada. Evitava desocupações que só serviam para estimular manhas femininas com os consequentes sarilhos que daí advinham para o sexo oposto. E deles nem filósofos como Aristóteles e Virgílio, escaparam, como já o contámos.

Na Idade Média a mulher casta era representada pela imagem de uma jovem sentada a fiar com a roca e o fuso, seguindo o ditado popular- "a fiar e a tecer ganha a mulher de comer" 1.

Era uma casta fiação, mas também “uma seca” como bem se queixava a coquete Isabel, da Farsa "Quem tem Farelos" do Gil Vicente:

"Faz a moça mui mal feita,
corcovada, contrafeita,
de feição de meio anel;
e faz muito mal carão,
e mal costume dolhar."


E a Inês Pereira que antes quer "asno que a carregue que cavalo que a derrube" também estava disposta a tudo para se ver livre dessas canseiras inúteis, renegando

deste lavrar
E do primeiro que o usou;
Ó diabo que o eu dou,
Que tão mau é d'aturar.


Como tudo tinha o seu oposto, nas constantes psicomaquias medievas, a dedicação das fiadeiras podia ser virada às avessas. Quando se queria apontar a cobardia ou mariquice de um homem, colocava-se-lhe um roca e um fuso na mão, e lá ficava o desgraçado com mais fama que proveito. Pior sucedia quando a fiação se tornava sinónimo de javardice de rameira.

Um ditado da época lembrava este mundo às avessas: "quando a rameira fia, o letrado reza, e o escrivão pergunta quantos são do mês, mal vai a todos três"
javardinha de Plasencia
A casta alterna com a porca e, para acentuar a troça, usava-se o bestiário satírico, mostrando-se uma javali atarefada na fiação doméstica como sinónimo de prostituição.
A "javali-fiadeira" aparece na marginália medieva sendo comum a sua representação em cadeirais de coro.
javali fiadeira, cadeiral da sé do Funchal
Por cá existe uma, esculpida numa das misericórdias do cadeiral do Funchal, idêntica a outras como as de Kempen na Alemanha; Ciudad Rodrigo; Toledo ou da igreja de S. Nicolau em Amsterdão, bem como em gárgulas e gravuras da época.

A brincadeira escatológica tem vários paralelos na literatura da época. É representada na imortal tragicomédia, referida no post anterior: La Celestina, escrita por Fernando Rojas, um judeu converso, editada pela primeira vez em 1499 em Burgos. A Celestina é a velha alcoviteira que trata de tecer as tramas dos amores dos jovens, num mundo cínico e cruel onde todos acabam vítimas das suas paixões. No acto III diz a velha alcahueta: "pocas vírgenes, a Dios gracias, has tú visto en esta ciudad que hayan abierto tienda a vender de quien yo no haya sido corredora de su primer hilado ".
Mais adiante, insiste-se na associação entre o fuso e o falo masculino: "con mal está el huso cuando la barba no anda de suso"2.

As aparências iludem – a velha rameira Celestina ou a Ama do Auto da Índia, quando se lembram da roca e do fuso não é em trabalho casto que estão a pensar – "quero fiar e cantar/ segura de o nunca ver" suspirava a abandonada mulher do mercador embarcado desejando que ele não tornasse vivo a Lisboa.

Goya, Album B, fiadeiras no reformatório







Goya conhecia estas histórias todas não se vai esquecer das fiadeiras nas suas gravuras satíricas. No Álbum B, que antecede os Caprichos, assim representa as raparigas de má vida, tonsuradas e encarceradas no reformatório, acrescentando a legenda irónica: San Fernando como hilan!






Goya, depenados
Mais tarde vai representá-las a depenar os "frangos" que se deixam apanhar nas suas teias.

Goya, Maja e Celestina, 1824-25















Picasso, Celestina

Paula Rego, a casa da Celestina, 2000-2001

Quanto às Celestinas, continuaram a ser imortalizadas. Picasso deixou-nos uma tremenda Celestina vesga e, recentemente, até a Paula Rego as retomou.


campónio gaiteiro de PlasenciaJá as javardinhas medievais nunca deixaram de ser vistas com agrado num mundo goliardesco, onde a virtude convivia descontraidamente com o pecado. Ao lado da javali gárgula de Plasencia vê-se um alegre campónio muito entusiasmado a tocar a gaita de foles.
Tocar gaita também era outra música e quem melhor a soprava ao desafio eram os porcos músicos, mas essa é outra história, que a apagada e vil tristeza, de que falava Camões, fez esquecer.
.....................................................

1- Francisco Roland (F.R.L.I.L.E.L.), Adágios e provérbios, rifãos e anexins da língua portuguesa... compilação de 1841)

2-Isabel MATEO GÓMEZ,
Temas profanos en la escultura gótica espagñola. Las sillerias de coro, Madrid, Instituto Diego Velazquez, 1979)

zazie e musaranho coxo


A quem arde o rabo água se deita


Aquela menina nua do cadeiral da sé do Funchal parece condenada a gerar equívocos. O caríssimo Ralf lincou o post e fala em actos de sodomia e quem sou eu para duvidar disso.
Mísula de sala de recepção da Câmara de Damme. Séc. XV- cena de banho misto, observada por um louco Na verdade, como contei, é a mesma ideia que provoca aos sacristães madeirenses. Só que, para sermos mais exigentes, o subtexto que a suporta não era directamente esse.
Com efeito, a representação medieval de actos de higiene é que estava associada ao pecado da voluptuosidade e da soberba. Várias são as fontes que o suportam, desde os banhos de Betsabé mesmo debaixo do nariz de David, até aos cabelos soltos das filhas de Sião, fustigadas como luxuriosas por Isaías- apenas no que se refere a fontes religiosas.
gravura do século XVII-
Nas profanas, o tema é glosado com variantes que vão da simbologias das águas das regras das sereias e da Melusine, às lâmias bascas, senhoras das águas, na tradição da Catalunha ou os ritos das lavadeiras, de que já falámos a propósito das rosas das ursas.

Na tragicomédia La Celestina, Fernando Rojas leva ao extremo este sentido lúbrico, quando caracteriza a alcoviteira: « Ella ténia seus ofícios, conviene saber: lavadera, perfumera, maestra de hacer afeites y de hacer virgos, alcahueta y un poquito hechícera. Era el primer oficio cobertura de los otros, so color del cual muchas mozas destas servientas entraban en su casa a lavar-se »

Brueghel,7 pecados mortais, soberba, 1556 (det.)Sem rodeios, Brueghel representou este acto de lavagem de cabelos femininos a par do homem a fazer a barba, numa das suas satíricas alegorias aos pecados mortais- neste caso, ilustrando a soberba.

Mas, para que não se pense que se preferiam tristezas a folias, naqueles tempos tão contrastados, voltaremos ao assunto.


Até já

.....................
Ver: Isabel MATEO GÓMEZ, Temas profanos en la escultura gótica espagñola. Las sillerias de coro, Madrid, Instituto Diego Velazquez, 1979)

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Melius est fodere quam saltare

2.5.08

No meio de umas reflexões acerca da mística e das distracções do arraiasolado fenomenológico da criação, o caro Despastor invoca as nossas caçadas por terrenos escorregadios do catolicismo badalhoco.
Impregnado de temores estéticos e sensuais à S. Bernardo, reconhece o caso extremo que lhe deitaria por terra as convicções religiosas, tão bem protegidas pela quentinha manta espiritual em que se aconchega- e confessa:
Mas, se, por exemplo, a Zazie descobrir um baixo-relevo com umas freiras a serem sodomizadas por um papa-formigas albino nalguma abadia normanda, aí sim, todo o corpo doutrinal em que assenta a minha fé correrá o risco de desabar como um castelo de cartas, dois de copas incluído, e poderei ter de me dedicar a tempo inteiro a ganhar dinheiro com posições curtas em futuros com fundos de sub-prime
Ora estas provocações pagam-se caras. O que eu não daria por caçar um papa-formigas albino mesmo que fosse no Alentejo, quanto mais na Normandia e, ainda por cima, em badalhoquices com uma freira.
ornitorrinca do cadeiral da sé de ViseuPois fique o caríssimo Despastor sabendo que nem sempre o bicho se ajeita com alimária da sua espécie.
Por exemplo- o bom do nosso cardeal D. Miguel da Silva , a quem Baldassare Castiglione dedicou o Livro do Cortesão, teve uma ornitorrinca em Viseu, mas não consta que o animal tenha feito poucas-vergonhas com as freiras. Na verdade, quem mais o fodeu (ao bispo) até foi o D. João III, que o acusou de pederastia e lhe tramou a brilhante carreira em Roma. E, mesmo neste caso, o assédio nem terá vindo do marsupial, quanto mais de monja.
Boschcolegiada de Beverley, Yorkshire



















Por outro lado, várias foram as freirinhas imortalizadas na tela e na pedra que substituíam o bichano por um eficaz godemiche, ou que preferiam carícias mais pecaminosas entre elas, conciliando o rosário e a cruz com a protecção velada do grande bode.

Reconhecerá também, quem está habituado a desfazer rebanhos, que o pior lobo é o que acorre à imaginação da casta ovelha.
menina nua, cadeiral da sé do FunchalDou-lhe mais um exemplo- não há cura nem sacristão que não tenha ideias tristes com esta menina nua do cadeiral da sé do Funchal.
Vá-se lá saber porquê, insistem que foi destruído o par que a “completava” por trás, quando, o que o artista se esqueceu foi de acrescentar a bacia (como no caso de Zamora), pois as piquenas apenas se punham nestas posições para poderem lavar os cabelos.


hedghogging-The fox knows many things, but the hedgehog knows one big thingE mais; não se retire, com tanta confiança, para as investidas na bolsa. É que, quando o estímulo passa ao vil metal, saltam mais as meninges que o resto. E, como também deve saber quem conhece a vida do campo, não há subprime que resista à estultice de um hedge fund, nem ouriça-cacheira que por baixo não se queixe.
blind hedgehog










Esses glutões eriçados fodem o mercado e ainda gostam muito de citar Isahia Berlin para justificarem a perícia no açambarcamento dos frutos, mas depois, quando chega a hora da dança, embaralham-se todos.

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Ao trabalho

28.4.08

que no final da a semana há mais feriado


papua





































no tempo em que os aventureiros eram fantásticos

27.4.08

The Circular River : The Siberian Expedition1944 / 46:
Balog E o Xamã Branco Preparam Pó Alucinatório da Raiz de Pasternak


Kanhn & Selesnik


retalhamentos

25.4.08

[Cet excès qui vient avec le féminin]
sob o signo de Bataille

De l'érotisme, il est possible de dire qu'il est l'approbation de la vie jusque dans la mort
Syrinix



Jean-Jacques Lequeu-pigmaleão às avessas







La nudité n'est que la mort et les plus tendres baisers ont un arrière-goût de rat
bebe Marie, c.1940,http://www.aaa.si.edu/collectionsonline/cornjose/index.cfm/fuseaction/Main.Series&SeriesNumber=10



Joseph Cornell, bebe Marie- o idólatra cativo na perenidade forçada das bailarinas mortas.

















[l'erotisme] est le domaine de la violence, le domaine de la violation




Recomenda-se

23.4.08

Verdadeiro serviço público- a série de posts acerca do
darwinismo, no Dragoscópio


de macarrão a pinguim

22.4.08

O Hogarth já lhe chamava estilo queerinthian, quando queria gozar com os queer “emperucados”, e Horace Walpole mencionou-os como os maccaroni, de gostos exóticos que se reuniam no The Macaroni Club
The Macaroni.  A real Character at the late Masquerade Philip Dawe London: Printed for John Bowles, July 3, 1773




Em 1770, na Oxford Magazine, foram assim caracterizados os dandies sodomitas:

«There is indeed a kind of animal, neither male nor female, a thing of the neuter gender, lately started up amongst us. It is called Macaroni. It talks without meaning, it smiles without pleasantry, it eats without appetite, it rides without exercise, it wenches without passion

pinguim macaroni

É claro que a moda ainda sobrou para os pinguins do antárctico que não tocavam piano, nem falavam francês e muito menos usavam peruca postiça.





parada de pinguins gay em OsloMas, vá lá agora alguém convencê-los que a regressão de gay a macarrão também não é postiça nem contra-natura...

................................
consultar:
The Lewis Walpole Library
post inspirado numa dica do Antónimo, na caixa de comentários das 5 perucas
{não tinha reparado, mas também já vem na wikipédia}

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5 perucas/ 5 passarinhas

19.4.08

Em momentos de classicismos e ecletismos neoclássicos, o connoisseur torna-se um taxionomista, empenhado na observação e classificação dos detalhes de objectos mais díspares. Há que aplicar cânones como o ciclos da vida- desde o primeiro estádio mais puro, até ao esplendoroso clímax no seu apogeu, sem esquecer os exageros e maneirismos finais.





Hogarth lembrou-se de satirizar a moda, escalpelizando o status das perucas e de quem as usava, em réplica aos cincos estilos da Antiguidade.

5 ordens da arquitectura paladiana: dórico | jónico| coríntio| compósito| e toscano.
5 ordens de perucas: episcopal | Old Perian e Old Peerian ou Aldermanic - funcionários municipais e pares | Lexonic (advogados) | Compósito ou Semi-Natural | Queerinthian ( o mais ornamentado)

Lequeu, um tanto mais tarde, possivelmente ainda afectado pelas consequências da tomada da Bastilha, deu em inspeccionar a vida secreta de cinco exóticas “crateras”, feitas bicho solícito ao olhar invasor do taxidermista.


ae nubileAge pour concevoirCratère d'une fille adolescente animée de désir déréglé: elle est couchée sur le dos les deux cuises [sic] levées et bien ouvertes, de manière qu'on voit le pucellage forceUn autre cratère d'une fille adolescente dont on voit la pureté virginaleAction des parties sexuelles d'une fille qui veut concevoir pour enfanter : elle était alors dépucellée








Age nubile| Age pour concevoir| Cratère d'une fille adolescente animée de désir déréglé : elle est couchée sur le dos les deux cuises [sic] levées et bien ouvertes, de manière qu'on voit le pucellage force |Un autre cratère d'une fille adolescente dont on voit la pureté virginale| Action des parties sexuelles d'une fille qui veut concevoir pour enfanter : elle était alors dépucellée
..................................
clicar nas imagens
ver :
The Five Orders of Perriwigs as they were Worn at the Late Coronation Measured Architectomically
Lequeu, desenhos


Enquanto não chegam as mãozinhas

16.4.08

Ficam aqui uns pézinhos de dança

My travels in China, Japan and Java, 1903 by Jagat-Jit Singh, Raja-i-Rajgan of Kapurthala (1905), p.82A (Dancing.)









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Mi varita es cientifica


Pérolas do ateísmo científico e militante lidas, por aí, nas caixas de comentários

«Por outro lado, o universo ser uma entidade que se gerou a si própria parece-me uma solução para o teu problema teórico, com a vantagem de dispensar a invenção de novas entidades. É também uma solução que, por si só, já ocupava bem toda a capacidade filosófica da nossa espécie.»

«A filosofia não pode escolher a ciência que mais lhe agrada (como a que lhe permite discorrer sobre tretas em blogs) e descartar a outra. Se formos realmente produto de uma evolução sem propósito, então a filosofia tem é mais que se reconstruir com base nessa ideia. Um computador não deixa de funcionar só porque isso é incompatível com a filosofia.»
«
Mas a ciência nem é boa, nem má, nem assim-assim: a ciência é um método, um método que nos permite estudar o átomo e os modos como podemos usá-lo para estoirar uma cidade inteira, por exemplo.
A única discussão que vale a pena ter é se é ou não o melhor método para estudar o real.
»

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Dá sempre bode





O grande bode ou bruxas em Sabbath (detalhe)Goya,(1821-23)
Basta tocar num niquinho dos dogmas frankenstoinos, para aparecer uma excursão de bodes a lutarem contra a Inquisição, em prol da liberdade de um naturalista morto há mais de um século.



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momento de publicidade



Sexta-feira há caravana no Porto



And now for something completely different

15.4.08























{depois passam para o rádio da barra lateral}


Maneirismos e excitações por réplicas mortas

13.4.08

{subtexto da emulação dos antigos}

«The connoisseurs and I are at war, you know; and because I hate them, they think I hate Titian, and let them» (William Hogarth to Hester Thrale, in Anecdotes of Samuel Johnson 1786)
The Analysis of Beauty, plate I, 1753 (statuary yard)
O espírito satírico de Hogarth nem num tratado estético que pretendeu sério e destinado a cultivar o bom gosto da sociedade da época, conseguiu ficar à porta.
Numa réplica do diálogo socrático a propósito do Belo, ilustrado na estatuária de Clito ,Hogarth serve-se das estátuas dispostas do jardim de Sir Henry Cheere, em Hyde Parks Corner, para exemplificar a os princípios necessários à beleza da composição, mas acaba por fazer uma leitura de duplo sentido entre o texto e sátira aos críticos da época.
Apolo Belvedere

Os jogos de sedução entre deuses emparelham com as quedas em desgraça dos poderosos desse mundo greco-romano.



O Apolo de Belveder dirige-se à Vénus de Médicis,


Venus Medicis



enquanto as restantes se entregam a jogos de crueldade onde o esplendor do seu passado ficou reduzido a antiqualhas.




Cesar




Ao centro, César que está em vias de se estatelar da corda da roldana, caindo aos pés do Brutus que o assassinou;




o colosso de Hércules assoma mais alto que Laoconte, ao longe condenado pelos deuses, apenas por ter anunciado a trágica verdade.Laoconte

Estas ruínas de jardim, não passam de signos mortos, vanitas despojadas do sentido divino, prontas a serem vendidas pelo melhor preço a qualquer coleccionador. Usadas como réplicas de cópias passadas de mão em mão, os méritos dos seres que encarnavam esvaziaram-se em prol da cotação dos críticos da moda, que as preenchem com os cultos shaftesburianos mais caducos.
Enquanto no tratado vai dizendo que o Antinous ilustra em perfeição a beleza das proporções do corpo humano, com a linha serpentina, citando as próprias palavras do pintor e teórico francês Dufresnoy, na gravura que ilustra a passagem não resiste a gozar com o estereótipo em que este classicismo tinha sido convertido.
John Essex e Antinous

Quem dele se aproxima, todo empertigado, dando-lhe a mão em gesto de assédio, não é mais que John Essex, o famoso mestre de dança que Hogarth já havia satirizado no Rake’s Progres.




A Rake’s Progress, 1732–33 (2)




Com um pedante tão impertinente a admirá-lo, até o belo e divino moço, amante do Imperador Adriano, parece preferir virar-se para a Vénus de Médicis. O admirador da cópia do cânone masculino desta estância não é mais que um artista dançarino, cujos trejeitos eram tão úteis quanto a estatuária replicada para animar os salões dos possidónios londrinos.


Ver:
Ronald Paulson, Hogarth, Volume III: Art and Politics 1750-1764
*Na verdade, a estátua representada é um cópia do Hermes de Praxíteles que na altura era confundida com uma figuração de Antinous

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A Vénus posta a nu pelos seus admiradores


John Zoffany Tribuna degl' Uffizi, 1772-78
E as obras de arte explicadas pelos seus patronos








O Sir “Horatio”, do Committee of Noblemen and Gentlemen of Kent, Hampshire, Surrey, Sussex, Middlesex and London, inspecciona a Venus de Urbino;

o Sir Thomas Wilbraham, usa monóculo para a dos Medicis;









só o James Bruce de Kinnaird prefere sonhar com os crocodilos do Nilo




.........................
consultar:Ronald Paulson, Hogarth: His Life, Art, and Times ,Yale University Press, New Haven, 1971


Recomendação de fim-de-semana

11.4.08

http://www.acrossindonesia.com/Irian_Photo_Gallery.htm
É verdade, como bem lembrou o Lusitânea , não se esqueçam de meter o IRS.


mistérios

10.4.08

Que supresa é que ele andará a preparar...?

















Aviso aos forasteiros

9.4.08

Proibido subir a corrente
The pagan tribes of Borneo; a description of their physical, moral and intellectual condition, with some discussion of their ethnic relations, vol.2 by Hose, Charles (1912), p.206A [ou Alexander Calder no Borneo]

via

As minhas árvores da vida favoritas #9

8.4.08








árvore do Buda-Roger Cook, The Tree of Life, image for the Cosmos,Avon, New York, 1974















Buddha in Glory

Center of all centers, core of cores,
almond self-enclosed, and growing sweet--
all this universe, to the furthest stars
all beyond them, is your flesh, your fruit.

Now you feel how nothing clings to you;
your vast shell reaches into endless space,
and there the rich, thick fluids rise and flow.
Illuminated in your infinite peace,

a billion stars go spinning through the night,
blazing high above your head.
But in you is the presence that
will be, when all the stars are dead.

Rainer Maria Rilke


Árvore do Buda, China (destruída)
Marcel Ducham,Suporte para garrafas (readymade, 1914)

..........
Acrescento:
Graças ao
Antónimo, fica aqui um curioso link com comparações idênticas.
Ver: Roger Cook, The Tree of Life, images for the cosmos, Avon, New York, 1974.
Aproveite e siga a surpresa que ele prepara...


O que é a verificação experimental



[dedicada ao caríssimo Despastor]

Prof. Denzil Dexter (University Of Southern Califórnia): At the weekend, I continued my research into a particularly rare species of dinosaur.
After building a time-machine out of a station wagon, some pots and pans, and some aluminum tin-foil, I attempted to travel back in time 5 million years. The results were disappointing. I then realised it would be more sensible to excavate some fossils, and then reassemble the bones. Try to make a mental picture, of what it was like to be a gruff cave-man. And now Dave and particle acceleration. Dave...


As minhas árvores da vida favoritas #8

7.4.08

“este movimento circular não necessita de pernas, o universo foi criado sem pernas nem pés”
Platão, Timeu

A Árvore da Vida corresponde ao centro cósmico de um universo perfeito e circular, no sentido em que Platão já havia descrito no Timeu.
 Santa Maria de Penamacor, em Lugo, finais séc. xii
No Jardim do Éden existiam duas árvores: a da Vida e a do Bem e do Mal. Foi desta que a serpente maligna tentou Eva e esta deu a provar o fruto a Adão, tendo como consequência a Queda e o conhecimento do bem e o mal, ficando por realizar a promessa de eternidade (enquanto qualidade) da Árvore da Vida. Segundo a lenda uma semente foi salva e colocada na boca de Adão, de forma a dar sentido à vida, permitindo o aperfeiçoamento da Humanidade. Quando Adão morreu, a semente paradisíaca fez renascer da sua cabeça a árvore de onde foi feita a cruz. A morte de Cristo é acompanhada pela árvore seca e pela simbólica do seu renascimento: o sacrifício e o ciclo da árvore do Éden apontam para uma dádiva - a da possibilidade de Salvação. A busca deste jardim Éden foi uma constante do viajante medieval. Nesta altura ainda o Oriente estava banhado numa aura mítica, razão pela qual era para essas paragens que se viajava em sua busca.

: tímpano Dinton, Bucks, Inglaterra
De acordo com as lendas, esta Árvore do Paraíso Terrestre elevava-se num rio de água límpida como o cristal, que jorra directamente do trono de Deus. Era conhecida por peridixion, termo que deriva de uma adulteração de paradision. Nos bestiários aparece como o peridens, uma árvore que nasce na Índia e dava frutos doces, dos quais se alimentavam as aves. A árvore simbolizava Deus; os frutos Cristo e a sombra o Espírito Santo. As pombas representam os homens - se temos connosco o espírito santo, o Dragão/Demónio não nos pode atingir, mas apanha-nos se nos afastarmos da Igreja.
peridexion com dragão




Os animais que rodeiam a árvore sagrada é que podiam mudar, alterando-se o sentido da mensagem. Quando não era o dragão que corria, de nascente para poente, atrás da sombra dos ramos, podiam, a árvore podia aparecer ladeada por felinos. O bafo das panteras e dos leões tinha o poder de ressuscitar as próprias crias- ligando-se a um sentido cristão de ressurreição.


portal da matriz do Alvorportal manuelini da matriz do Alvor, meados século XVI











O sentido da perpétua renovação e regeneração da Árvore da Vida é reforçado pela Roda do Universo ou “rosa cósmica”, que podia aparecer na iconografia do Paraíso como centro do mundo, lugar de louvor e triunfo espiritual.

roda do universo ladeada por grifos- Bridekirk, InglaterraAssim se encontra nas representações de alguns portais medievos ingleses e, de forma muito extemporânea e rica de sentido, no portal manuelino da matriz do Alvor.

Razão pela qual o estranho tímpano do portal da igreja conventual de Penamacor, em Lugo, datado de finais do século XII, pode ter simbologia idêntica, sem pr