
Ente misturas de herbários, cosmologias herméticas e estas meninas em banhos medicinais ou sangrias cátaras exterminadoras, digam-me lá se este não tem muito mais “substrato”
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antes risos que prantos escrever, sendo certo que rir é próprio do homem [Rabelais]

Por tradição ancestral a gaita-de-foles sempre foi associada à provocação sexual. O tema populariza-se na Idade Média na literatura e na iconografia jocosa.
Gil Vicente e Camões referem-no a propósito dos tempos soturnos trazidos pela Inquisição. A "apagada e vil tristeza" que já aparecera no Triunfo do Inverno vicentino:
No Triunfo do Inverno, tragicomédia concebida como uma assoada e festa de Maio*, a velha Brásia Caiada, faz um percurso pela serra, suportando as intempéries invernais, porque deseja casar-
No bestiário medieval o porco ou javardo, significa literalmente essa gula ou luxúria depravada. Já Santo Isidoro de Sevilha o recordava nas Etimologias: "os porcos são imundos porque se revolvem e sujam na terra à procura de alimentos". Na obra Hortus Sanitatis (1485), inspirada em Aristóteles, Jehann von Cube desenvolve a ideia da associação do porco à luxúria, referindo a precocidade sexual do animal que aos oito meses já é capaz de copular.
Nestas gaiteirices, a gaita-de-foles parece ter esse específico significado sexual. Arcipreste de Talavera, na recolha de refrães que incluiu no El Corbacho (1438), a propósito de frades e seculares dados a assediar a mulher do próximo, utiliza a frase: "dignos por us fechos de tañer la cornamusa"

O efeito escatológico das suas provocações tanto actua nas festas populares, feiras e vagabundagens de saltimbanco, como o promove a bobo de corte em meados do século XIV.



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*segundo Maria José Palla, A Palavra e a Imagem. Ensaios sobre Gil Vicente e a Pintura Qinhentista, Editorial Estampa, Lisboa, 1996.
consultar também:
site dedicado a gaitas-de-foles
imagens:
- Les Très Riches Heures du Duc de Bérry, 1413.
-Pieter Brueghel o Velho, Dança de camponeses, 1556
- Pieter Brueghel o Jovem, interior de festa de casamento (detalhe), c. 1620
- Pieter Brueghel o Jovem, velho gaiteiro
- retábulo da Sé Velha de Coimbra, provocação sexual entre homem selvagem e javardo a tocar gaita
- campónio a tocar gaita, gárgula da catedral de Plasencia
-porcos músicos- cadeiral de Santa Cruz de Coimbra;
-javardos a copularem ao som da gaita, cadeiral de Oviedo
-gravura da Reforma- "Papa doutor em Teologia e Mestre da Fé", Lucas Cranach, meados do século XVI-Erhard Schoen O demónio a tocar gaita de foles c. 1530
- Sebastian Brandt, A Nave dos Loucos, louco gaiteiro, gravura de Dürer.
- cena de felatio entre meninos, portal da Sé de Lamego
-menino a masturbar-se ao lado de coelho gaiteiro, capitel da igreja conventual de Vilar de Frades
- Jeff Koons, 1988, porquinhos e S. João Baptista
nota: acrescentada a gravura satírica do Papa de Lucas Cranach, graças ao BibliOdissey

Na versão mais moralista, de que fala Sebastian Brant na Nave dos Loucos, dirige-se a «Quem no tempo alegre do verão descuida o trabalho, acabará no inverno como os ursos a chupar os seus próprios dedos”
(...)Se para o vosso cortiço
(...)a que o gosta,ver:
Sebastian Brant, Stultifera Navis (Basileia, 1497)
Frei António das CHAGAS, 1631-1682, Portugal , in Poesia Portuguesa Erótica e Satírica
Selecção, prefácio e notas de Natália Correia, Antígona/frenesi, Lisboa, 1999
Rui MONIZ, séc.XV, in Cancioneiro Geral e "Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, ibidem.
Gil VICENTE, "Farsa dos Físicos", Obras completas de Gil Vicente, Lisboa, Sá da Costa, tomo VI, 1955, pp.102-103.
Leonardo da VINCI, Bestiário, fábulas e outros escritos, [H, 6r], Lisboa, Assírio e Alvim, 1995, p. 16.
Imagens: -“Bíblia do Urso”, ANTT (assim denominada em virtude da marca de Impressor da Matias Apianus) ed. Basileia, 1569.
-"Imprevidência"- Nave dos Loucos- gravura atribuída a Albrecht Dürer
-cadeiral da igreja da Natividade de Maria, kempen, séc. XV
-cadeiral da Sé do Funchal, c.1517.
.... urso pirateado daqui 
e agora vamos aos outros no canal 1

Personne n'a vécu dans le passé, personne ne vivra dans le futur. Le présent est la forme de toute vie. C'est une possession qu'aucun mal ne peut lui arracher. Le temps est un cercle qui tournerait sans fin


















