Aproveitando para retribuir as magníficas esculturas do gótico germânico que o caro amigo "ateu e laico" Lutz me dedicou, lembrei-me de uma retribuição mais alargada muito cá do Cocanha.
Dirige-se, do mesmo modo, a outros, para testemunhar que o paganismo e outras iconoclastias incomodaram tanto os templos medievais como o espírito que nos norteia.
As igrejas também eram isto- uma autêntica Bíblia onde nenhum factor da vida era excluído de representação. Misturando tradições populares com eruditas, religiosas com as mais profanas sátiras e licenciosidades, os cadeirais de coro foram os objectos preferidos de todas as fúrias puristas e purificadoras. Primeiramente amputando-lhes detalhes mais mundanos, em prol de reformas de costumes; depois em nome mais alto e bem mais moderno - o da invasão da Razão iluminista que os queimou por inteiro, sempre que lhes deitou a mão.
Este sim, foi o grande martírio que a arte também sofreu às mãos dos mais contraditórios zelos e outros desmandos sempre excessivamente espirituais.















































imagens:

acrobacias- catedral de Colónia
jovem dançante- catedral de Colónia
amantes- catedral de Colónia
rapariga a tirar as cuecas- antiga Colegiada de de Saint-Cernin, Auvergne
menino a aprender a andar no triciclo, Bruges, Igreja de Saint Sauveur
cena de clister, Bruges (museu)
cena homossexual- beijo do demónio- cadeiral de Oviedo
julgamento Final- cad. Catdral de S. João em Bois-le-Duc (Brabante)
louco, cadeiral de catedral de Colónia
herege agrilhoado,mouro a fazer salamaleque,nobre pensativo-
cadeiral do mosteiro de Santa de Crus de Coimbra

.............................................
e se com esta salganhada de dedicatórias não acabar o Cocanha deslincado, só pode ser porque o espírito natalício ainda é levado muito a sério
ehehehehehe

13 comentários:

jpt disse...

é certo que há distinção entre público e privado. e que vivemos num mundo (mítico?) que sobrevaloriza esse privado. e a sua liberdade de expressão. no entanto deveríamos reflectir. será legítima esta atitude privada de divulgação de símbolos da inverdade, sabendo que tanta influência alcançam no público? não será necessário quebrar dogmas e reflectir sobre a necessidade de impedir esta divulgação?
não posso aqui elaborar mais detalhadamente, mas hoje mesmo no meu blog (passe a publicidade) procurarei esclarecer do meu incómodo sobre este proselitismo malévolo

zazie disse...

que símbolos de inverdade?

o que são símbolos de inverdade?

onde?

PõÔÕ...

já ouvi muita coisa na vida mas essa de símbolos de inverdade é a primeira vez ":O)))

e qurebrar dogmas para impedir o quê?

que dogmas?

que proselitismo malévoilo?

o dos jacobinos que destruíram os meus queridos cadeirais e mais o resto todo a que deitaram a mão?

meu caro, esses estão controlados. hoje em dia só temos 7 activos e até o Louçã lhes fez um manguito ":O)))


que estás para aí a dizer? cá para mim foste mas foi ao símbolo de irmandade Calém à hora de almoço

ahahahaha

zazie disse...

mas se isso é com o Cocanha calma aí que já te dou a resposta em primeira página. Aqui só nos proibimos a nós próprios e ao Rei de Espanha!

ahahahhaa

jpt disse...

a resposta está dada

timshel disse...

sinto sempre uma enorme dificuldade em comentar os teus posts "estéticos"

zazie disse...

fica com vergonha, é?

ehehehe

timshel disse...

a sério

é uma coisa curiosa, uma mistura de ignorância e de vaga repugnância

mas não me leves a mal: nem a minha ignorância e muito menos a minha vaga repugnância são culpa tua

na prática é como se estivesses a falar marciano: por vezes sinto que o marciano é uma língua rica ou bonita ou interessante mas nada me toca nem nada me diz (decididamente a minha aversão a questões estéticas visuais é mais a consequência de uma dada estrutura de personalidade do que de uma deliberada opção ideológica ou religiosa)

apenas de vez em quando :)

zazie disse...

essa agora tem piada...

mas olha lá, eu linkei-te precisamente por causa daquela conversa em que tu dizias que eu tinha uma visão folclórica da Igreja e eu te respondi que sem folclore nem havia Igreja.

Isto que eu coloquei aqui era a decoração natural das cadeiras de coro!

não é estética minha- são decorações naturais que se usavam na Idade Média e que só começaram a acabar a partir do Concílio dr Trento ou no seguimento das iconoclastias dos países que aderiram à Reforma.

O que eu te pergunto é mais simples- que pensas desta Igreja?

isto não era visível pelos fiéis porque os coros estavam fechados. Mas eles viam e escolhiam os artistas e não se importavam em gozar com os seus próprios males ou mostrar tudo o que dizia respeito ao mundo.

Claro que na marginalia da pedra também havia, mas nos cadeirais era assim, uma bíblia moralizadora do mundo.


Que tens a dizer disto, meu caro Tim? também te mete nojo que a Igreja Católica fizesse isto?

É que se há erro comum a muito crente e a muito ateu militante é que Igreja é só crença e não é cultura e tradição como disse o idiota do Louçã no debate

zazie disse...

e olha que já tenho mais um poste na calha por causa da festa do Corpo de Deus

E é também para responder à tremenda ignorância de um César das Neves que faz pior trabalho pela Igreja que 20 ateus juntos

zazie disse...

é claro que nem é para responder aos 7 ateuzinhos laicos do relatório dos crucifixos porque esses nem merecem resposta de tal modo aquilo é patologia misturada com a mais profunda ignorância

timshel disse...

pois é zazie

a cultura e a tradição dizem-me muito pouco

sabes porquê?

porque são a humanidade histórica liofilizada: encontramos lá o bem e o mal, o belo e o nefasto, em suma, o relativismo vestido com as faustas e nobres vestes dos nossos antepassados

zazie disse...

ok, podem-te dizer até nada, isso já eu desconfiava porque tu para desceres lá do alto só se for por uma boa garrafa terrena mas, ainda assim rapaz, o que tu tens aqui é obra da Igreja!

Não importa agora apenas o mundo, importa também a visão que a Igreja tinha de si própria- isto não é arte profana encontrada entre heresias ou meros palácios de corte- isto é mobiliário litúrgico, rapaz! e por isso não podes contentar-te em virar os olhos porque não te interessam os antepassados.

Estes antepassados são os contrutores do Cristianismo- tiveram mais importância na unificação de uma Europa que tem hoje a UE ":O))) e esta também era arte deles.-correspondendo a uma complexa visão do mundo que me parece até bem mais interessante que a dos nossos dias.

Isto é que era a mais antiga noção de que nada de humano deve ser estranho a quem comanda o "rebanho". Por isso é que me inriga o que te incomoda.

Incomoda-te porque desconhecias que também se esculpiam estas coisas um pouco por todo o lado dos templos?

Incomoda-te porque te parece demasiado profano para umá igreja?

acho que tenho de postar a carta do S- Bernardo ao Abade Guillherme para vermos como isto (ou melhor, algo mais fantástico nos capiteis românicos) também pareceu contrário ao rigor de muitos puristas.

E olha que ia imaginar que o teu temor é bem mais parecido com o do S- Bernardo do que imaginas...

ehehehe

ele também temia porque sentia...

(o certo é que não teve qualquer responsabilidade na destruição de nada, mas a verdade é que ainda no século XIX o citavam para se desculparem em não restaurar certas "poucas vergonhas")

Manoel Carlos disse...

Vim em busca de arte moçambicana, mas isto não me impediu de apreciar.

Que em 2006 sejamos atentos às palavras do poeta.
Grande e fraterno abraço.
Manoel Carlos
http://www.agrestino.blogger.com.br

Quem Morre

Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu
amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma
em escravo do hábito, repetindo todos
os dias os mesmos trajetos, quem não
muda de marca, não se arrisca a vestir
uma nova cor ou não conversa com
quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma
paixão, quem prefere o negro sobre o
branco e os pontos sobre os "is" em
detrimento de um redemoinho de
emoções, justamente as que resgatam
o brilho dos olhos , sorrisos dos
bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa
quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto
para ir atrás de um sonho, quem não
se permite pelo menos uma vez na vida
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os
dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona
um projeto antes de iniciá-lo, não
pergunta sobre um assunto que
desconhece ou não responde
quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige
um esforço muito maior que o simples
fato de respirar.
"Somente a perseverança fará com que
conquistemos um estágio esplêndido de
felicidade".

Pablo Neruda