[como na recordação do príncipe Miskin “iluminar a figura de um idiota através de um animal, fazer ver a vida através dele” (in Adelio Ferrero, “Robert Bresson”, Il Castoro Cinema, Janeiro 1976)]


«Faz com que apareça o que, sem ti, talvez nunca venha a ser visto






o amor

o desejo

o sofrimento...










em quedas

de mão-em-mão









como a água da cascata...

a morte...




todos prisioneiros, condenados ao cativeiro


à corrupção e

à humilhação








e o olhos que queiram ver e os ouvidos que queiram ouvir

- a redenção

mais Bresson a seguir aqui

Nos seus passinhos rápidos, unhas afiadas e jeitos de demónio, os homens da justiça, de garras afiadas e mais rápidos que uma pluma, parecem gatos que nem no caminho para o inferno se conseguem agarrar...

Francisco de Quevedo, Sueños (1606-1621)




















Goya, Animal de Letras, Album G (1824-28)

this season I'll be mostly wearing a superbitch bag












Ted Noten, Pistola Walhter e acrílico, 2000

Já está. As seis raparigas (quatro ex-Indiscretas e duas debutantes) reunidas durante dois dias e uma noite conseguiram finalmente atribuir os prémios do concurso cinematográfico: “gajo feio com pinta”.
Antes de mais, há que esclarecer que as meninas concorrentes são as principais responsáveis pela demora pois não cumpriram as regras. A ideia era eleger um actor feio- o que significa feio mesmo- a roçar o desagradável, mas com um je ne sais quoi que dá a volta toda à história.
Ora o que nós recebemos foi desde esses gajos feios com pinta, a meninos bonitos; gajos com pinta mas sem serem feios; um lourinho; um senhor distinto e bem parecido (categoria totalmente fora de concurso) e até um Benicio del Toro- numa nítida provocação e atentado à decência deste blogue.
Assim sendo, fomos obrigadas a criar uma categoria extra- a “the best”, paralela à de “gajo feio com pinta”.
Segue-se pois o resultado:



Na categoria de gajo feio com pinta, ganhou Harvey Keitel Com dois votos a favor (os outros continuaram a ser todos diferentes)





Na categoria extra “the best”- Vincent Gallo (o príncipe o príncipe Míchkin, como lhe chama a Cris) Por unanimidade e aclamação dos 3 membros iniciais do júri e sem hipóteses de empate. O prémio será entregue em mão ao Senhor Gallo, pela própria Cristina Fernandes.






A minha escolha(que o musaranho teve o desplante de apelidar de Alfredo Marceneiro dos States) vinha, de facto, de um comentário num debate político e trata-se do Eddie Constantine, mais especificamente na pele do agente Lemy Caution na cidadade de Alphaville -ou como Tarzan vs. IBM ,no título inicial.













Agradecemos a todos os concorrentes (com link ou sem link) e à paciente equipa do júri:
Ana Os Cavaleiros Camponeses no Ano 1000 no Lago de Paladru
Cristina dos Dias Felizes
Isabel- uma debutante sem blogue
Lídia- do Errância
morggie- uma debutante com blogue clandestino

Concorrentes:
Animal dos Marretas (não ganhou porque o musaranho ficou chateado com a indirecta às alimárias)

Anónimo das janelinhas do Misantropo
Cristina Fernandes do Dias Felizes (e membro do júri)

Flávio (ex-metropolis pastilhinha) do A Bomba grande vencedor cumprindo as regras do concurso!

Isabel- uma sem blogue (com uma escolha responsável por alguma gaguez nos membros do júri)

João Villalobos do eununcadisseisto perto de vencedor dadas as indecisões... (Depardieu, Woody Allen e ele próprio). A melhor apreciação de erros nas escolhas “achar que o Robert Mitchum é feio não dignifica ninguém. E essa do Benicio del Toro é de bradar aos céus! Não viram o Sin City?”

Margarida- uma multi-blogger mais conhecida pela MP do Ecléctico (mais uma responsável pela necessidade de criar nova categoria no concurso)

morggie- de blogue clandestino e membro do júri

Paulo Cunha Porto do Misantropo Enjaulado (amiga e anónimo votantes)- inspirador da ideia do concurso

Susana do lida insana Robert Mitchum ( só não ganhou porque o gajo não entrava nos feios e para best teve concorrente que lhe fez sombra) Por mim ganhava já na categoria da voz

Susana (raspa) do Xá de Limão- Donald Sutherland (com um insistente voto a favor por membro do júri)

vovó zundapp do Famel Zundapp a responsável máxima pela necessidade de se criar nova categoria no concurso... e grande vencedora com the best- Vincent Gallo!

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Nota: o musaranho tem andado para aqui todo emproado a gozar com estas coisas mas fiquem sabendo que lhe apanhei o alter-ego dos movies- o pilha-galinhas... até comprou uns óculos iguais aos do Fetcher... hummph!

Agora juntaram-se 5 chabalas no júri e o resultado foi terem 5 chabalos diferentes escolhidos...
E ainda há quem tenha ilusões em querer compreender a cabecinha de uma mulher...

Bem, pela minha parte enquanto porteiro deste estaminé, peço desculpa aos caros concorrentes e espero que elas consigam acertar num deles à segunda volta...caso contrário tenho de chamar a sub-comandanta Paulina Bonaparte para pôr ordem nisto.

é só para pedir um pouco mais de paciência porque a entrada da suplente ainda veio complicar mais a escolha: ficaram com mais um gajo diferente...

Quatro mulheres juntas a escolher uma coisa destas que é que queriam...

As “piquenas” do júri do concurso "gajos feios com pinta" estão reunidas mas parece que não conseguem chegar a resultado. Pois... e agora aguarda-se a todo o momento entrada de suplente a ver se saem do impasse.
Bem, eu cá até as compreendo e o “resultado” já eu vi- enquanto a coisa esteve em voto masculino ainda andou decente, mas depois chegaram as leitoras e descambou tudo. Isto com mulheres é sempre assim- fala-se em gajo e nem lêem o resto. Era gajo feio, raparigas! Feioso, não era para escolherem o mais sexy do planeta, carago! Agora elas andam às aranhas. Só as oiço para lá a dizer que não sabem o que hão-de fazer com o Benicio e mais o outro da vovó zundapp.... sarilhos.
Eu cá não sei de nada porque só voto em concurso de musaranha e aí não há quem chegue à minha Antracite del Rio- a estrepitosa del Paso, como lhe chamavam nos tempos áureos.
Ai Antracite, Antracite...


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É verdade, a Zazie está a fazer caixinha com o eleito dela mas eu já a apanhei. Uma coisa que nem vos digo...parece o Alfredo Marceneiro lá dos States, todo bexigoso e vestido na Maconde. Coitada da rapariga, está pior; aquilo é só gárgulas e nem lhe sobram olhinhos para mais nada...

O mundo que se cuide que a revolução mundial pode muito bem começar com um tradutor tuga no desemprego

e, já que ninguém se aventura, vamos lá ao autor- Giovanni Battista Braccelli.























Não foi nenhum surrealista, por muito que estes o tenham admirado, nem sequer pertenceu às vanguardas russas ou italianas ainda que pareça. Mas o Tristan Tzara editou-o e redescobriu-o passados cerca de 300 anos...
Pois é, Braccelli publicou estas bizarrias em 1624!
Pouco se sabe dele, para além do facto de ter sido artista florentino da corte de Pietro de Medicis, a quem dedicou 32 pranchas destes desenhos sob o título "Bizzarie di varie figure
Também criou alfabetos figurados, cuja tradição bastante antiga e, por vezes, igualmente erótica, será local mais apropriado para se encontrarem fontes destes malabarismos caprichosos. Virão daí as raízes e também do gosto de outros caprichos maneiristas que tinham tido grande desenvolvimento na corte dos Habsburgos, como é o caso das bizarrias de Giuseppe Arcimboldo .
Mesmo assim, a originalidade de Braccelli é enorme. As figuras compósitas das alegorias à Arcimboldo eram “naturezas mortas”; funcionavam por hiper-realsimo dos detalhes desde que estes se mantivessem imóveis. A menor autonomia transformaria a figura num monstro informe.
Com Braccelli são os corpos que se estilizam e libertam do próprio sentido biológico, tornam-se seres mais próximos da ideia do homem-máquina.
Alguns deles são de tal modo geometrizados e enigmáticos que fazem lembrar os entes metafísicos de um Giorgio de Chirico.
Não será excessivo considerar estas stravaganzas como as mais precoces e elegantes expressões dinâmicas do desenho, apenas retomadas na modernidade com as experiências do cubismo futurista.


















a ver se alguém manda um palpite

















Já agora, parece coisa aí para que data...?


...se não sou eu a tomar conta destas coisas ainda há levantamento de rancho...

É só par avisar que o concurso para o gajo feioso com pinta ainda não terminou. Façam favor de votar, que na terça-feira parece que há reunião do júri, seguida de comunicação do desgraçado vencedor de mais esta futilidade que a Zazie se havia de lembrar.

Até lá good night

Muitos monstros e personagens fantásticas medievais também são derivados de erros de tradução.
Os famosos comedores de peixe, mais conhecidos por Icthyophagus que já vinham da antiguidade e que oscilavam ente o fantástico e uma alimentação saudável, tornam-se faunus. Seguindo a Carta de Alexandre a Aristóteles deparamos com sucessivas traduções aglutinadoras:
Ictifauos- istifanos- ictiifaunos- ictifaos- ictigangos- fagos- faunos
A meio caminho entre o erro e o acrescentar um pouco de fantasia está a Arina- animal devorador que passa a fazer parte dos habitantes marinhos.
A Arina que odeia o tirano (qui hait le tirant) provém de um erro de tradução do grego odontotyrannus (o rei do dente) que era o nome do rinoceronte. Na Historia de Preliis confundiu-se odous/odontos- dente, com o verbo odere (odiar).


Um dos mais extraordinários aparece num ilustração do Hortus Sanitatis, imprimido em Mayence no ano de 1491. Toda uma bicharada aquática completamente absurda aparece numa passagem do tratado de ervas medicinais. São os tubarões e os golfinhos (canis marynus) tomados à letra e transformados em peixes-cão; os moluscos (lepus marinus) e os crustáceos (mus marinus) que com Plínio se transforma e, lebres e ratos marinhos. O mais delicioso é o que se passa com as focas. Da etimologia latina de (vitelus marinus) pela semelhança com os vitelinhos, transforma-se nuns disparatados monges aquáticos.
Thomas de Cantimpré no Liber de natura rerum explicava que estes animais “têm a parte inferior semelhante a um peixe, a parte superior de um homem e a cabeça é tonsurada como a de um monge”. Foi quanto bastou para o ilustrador criar o monge-do-mar.


Imagens:1- Icthyophago, Oxford, Bodleian Lybrary, MS. 614, fº 38v /sec XII-XIII); 2- Hortus Sanititais, Mayence, 1491 (de piscibus)

Bibliografia. Claude Lecouteux, Les Monstres dans la Pensée Médievale Européenne,[1993] PUF, Paris, 1995


Parece-lhe demasiado excêntrico o toucado da baiana? Serão um autêntico disparate os chapéus do Galliano? E o que é isso ao lado do adorno dos frutos de manga das belas jovens indianas?


vimos que as mulheres bascas medievais já usavam moda mais excêntrica embora a contra-gosto.













Estes vêm de muito mais longe. Das margens do Paraíso Terrestre, ou das Etiópias imaginárias das viagens fantásticas de Mandeville e quejandos.
São os cinocéfalos que andavam sempre com um boizinho na cabeça, de acordo com as histórias de Odorico de Pordenone e as habituais releituras de Mandeville.

Segundo os relatos, estes homens com cabeça de cão habitavam na Ilha de Vacuméran ou Nicumera - que deveria ser a Nicobar nas proximidades da índia. Eram boas pessoas, apesar da face canina, tinham o boi por divino, prestando-lhe tal adoração que andavam permanentemente com um talhado em outro e prata em cima da cabeça.

Cristóvão Colombo que também conhecia a lenda, mas um tanto estropiada, quando chega ao Brasil, julgando estar em idênticas paragens orientais, acrescenta que também os viu, mas confunde-o com os ciclopes. E assim, em vez de adorarem pacificamente os bois com toucados tão patuscos, tornam-se de tal modo ferozes que diz ele que até se alimentavam de carne humana: “ mal capturavam um, decapitavam-no e bebiam o seu sangue”.
Os cinocéfalos têm uma longa história de raízes orientais e um deles até acabou em santo, a quem se rezava para proteger os campos por alturas da canícula, como já se falou aqui.

















No caso destes pagãos com os bovinos na cabeça, o cruzamento aproxima-se de outras figuras orientais com toucados muito idênticos. Tal é o caso dos demónios da pintura de Li Long-mien as personificações de estrelas da tripitaka budista e derivações idênticas que acabam por se infiltrar na iconografia do Ocidente no final da Idade Média.
Imagens:
1- Cármen Miranda; 2- modelo de John Galliano;3- India .Rajasthan or Madhya Pradesh, c. 850; 4 e 5- cinocéfalos de Mandeville; 6- Marte (John de Foxton, Liber cosmographiae (1385-1408); 7- Homem Zodiacal, Três Riches Heures du Duc de Berry (1410-16);8- Demónio segundo Li-Lung- mien (1081), Paris, museu Guimet ; 9 e 10- personificações das estrelas no Tripitaka budista.

Notas:
Cristóvão Colombo, 1ª Viagem, Domingo, 4 de Novembro de 1492
Bibliografia : Jurgis Baltrusaitis, Le Moyen Age Fantastique. Antiquités et Exotismes dans l’Art Gothique, Flammarion, Paris, 1981.


um debate de tal modo aceso a propósito de galináceos transgénicos que o melhor é tentar distrair os rapazes com esta galinha subserviente




Ora vejam lá se este louco do Parmigianino não sabia que a elegância feminina é uma questão mental.
Basta a pose de uns canídeos para sabermos do que se está a falar

















O banho de Diana (c.1524-1527) detalhe, Fresco de Sanvitale, castelo de castle Fontanellato



1-
Uma donzela dos arredores de Nantes tinha um amante a meia légua da sua aldeia. Tinham levado tão longe os encontros, os suspiros e as declarações de amor, que a sua virtude acabou por ceder; e como nestes casos o que custa é só o primeiro passo, anteciparam-se ao casamento, sempre que tiveram ocasião.
Um sábado (foi véspera de S. João), a jovem dirigiu-se um pouco antes da noite a um sítio escuso num bosque onde o amante a deveria esperar. Como ele ainda não tinha chegado, ela começou a lamentar os favores que lhe havia concedido, dando-lhe assim o direito de faltar ao cumprimento das atenções devidas; depois, compensando a falta de respeito pelos prazeres que o seu amante lhe proporcionava, decidiu esperá-lo, temendo aborrecê-lo se faltasse ao encontro; e ao menos para ter o prazer de lhe ralhar.
Todavia, ele continuava a não vir; uma hora de impaciência passou-se a noite começava já a espalhar a sua obscuridade. A jovem fica furiosa e começa a proferir imprecações contra o seu amante, mandando-o para o diabo e dizendo entre dentes que mais valia ter arranjado um demónio que um amante tão pouco fervoroso e que, assim que tivesse ocasião, não teria o menor escrúpulo em lhe ser infiel. Mal pronunciara estas palavras quando vê aproximar-se o dito amante. Preparava-se para lhe dirigir as maiores injúrias, mas ele desculpou-se o melhor que pôde, dizendo que havia sido retido por importantes ocupações, mas que a amava mais do que nunca. A cólera da jovem abrandou. Ele pediu-lhe perdão e ela concedeu-lho; e imediatamente ficaram de acordo. Dirigiram-se para o bosque a fim de se entregarem às volúpias do amor, a noite favorecendo os seus misteriosos prazeres.
Mas, passado pouco tempo, ao julgar entrelaçar o amante nos seus braços a jovem sentiu um corpo peludo, com uma longa cauda que se agitava no ar. “Oh! Meu amigo...” exclamou ela. “Não sou o teu amigo”, respondeu o monstro enterrando as garras nos ombros da camponesa, “ sou o diabo que ainda há pouco evocaste”. Dizendo estas palavras, assoprou-lhe no rosto e desapareceu. A infeliz regressou febril e desvairada à sua aldeia, onde ninguém queria reconhecê-la de tal modo estava desfigurada. Deu à luz um gato preto ao cabo de sete dias e ficou doente para toda a vida.

Collin de Plancy, Dicionário Infernal (1826)








2- tentações pecaminosas numa vocação religiosa perdida

Fuseli, The Nightmare, 1871













3- tentações incestuosas numa família rural

David Lynch, Quem matou Laura Palmer

Como toda a gente faz concursos e coisas assim de gajas bonitas na tela e boas noutros sítios, lembrei-me de pegar na dica:

Na história do cinema, qual foi, ou ainda é, o homem feio com mais pinta?
Não vale a pena fazer a divisão entre o melhor actor e apenas o que tem mais pinta porque a primeira questão é só para encher.

Ora venham lá as respostas mas bem justificadinhas com imagens, que eu já tenho a minha.

P.S. têm mesmo de ser feios, não basta terem estilo e vice-versa.
P.S.2- É elementar que, pelo facto de serem feios, não significa que o concurso também se destine ao sexo masculino. Mas, ainda assim, aceitamos respostas de toda a gente; pois se até o musaranho que é muito rato tem o seu alter-ego cinéfilo...

Athanasius Kircher, Musurgia Universalis, Iconismus XXI, 1650
Descrição do órgão de água da Villa Aldrobandini no Tivoli.

Na parte central, em forma de gruta, Pã e os sátiros tocam flauta, acompanhados de cucos e do canto de um galo. Ao lado, um órgão mais pequeno com a efígie da ninfa Eco respondia aos primeiros.












Paul Klee, máquina de chilrear, 1922 (aguarela , caneta, óleo).

Passarinhos a cantar, ou caixa de música a funcionar à custa deles.