cocanha



; antes risos que prantos escrever, sendo certo que rir é próprio do homem [Rabelais]

cegueiras de amor

29.9.05

No 15º livro do Tratado de Magia Natural, dedicado a temas de caça aos pássaros, caça grossa e pesca (e o modo como apanhar estas criaturas vivas pela mão) o nosso Giambattista della Porta decide falar do Amor e do perigo do caçador acabar caçado.


Pelo fulgor do olhar, (Cupido) provoca naquele que atinge uma espécie de loucura e ensina-lhe os rudimento do amor. Por sua acção, o enamorado fica cativo em contemplação da beleza, enquanto os olhos são feridos.
Por esta razão se diz que Cupido monta uma emboscada com o seu arco, pronto a disparar as setas nos olhos do enamorado deixando-lhe a arder o coração
”. E cita Apuleio: “pelos teus olhos entra nos meus olhos e lança um cruel fogo no meu coração.

Este amor, em vez de fazer sonhar o enamorado, é tido como uma doença, o efeito de uma praga infecciosa, - a pior de todas, como ele diz, que só não contagia o próximo porque se vira contra si própria, deixando o apaixonado cativo dos feitiços que Cupido lhe lançou.
Idêntico ao bruxedo, compara o mal ao efeito do reflexo do espelho de Narciso que leva o fascinado a perder a sua real forma e morrer apaixonado por uma beleza imaterial.

Como tratamento para remover o feitiço, aconselha a desviar a cara ao olhar que o pretende ferir e ir à causa da maleita. Para isso necessita de evitar a companhia da sedutora, precaver o organismo de qualquer fraqueza motivada por doença e concentrar o espírito no trabalho.
Aos que já foram contaminados dá indicações mais técnicas, como as sangrias, purgas de fluidos e pestilências que o organismo possa possuir, para que a praga da paixão seja expurgada juntamente com eles.

É muito curiosa esta descrição do cupido amoroso. Segue a teoria dos simulacros, que entram pelos olhos, e impregnam o cérebro de duplos das coisas; coloca o apaixonado no lugar do idólatra cativo, como no mito de Pigmaleão, como já foi referido aqui , mas afasta-se do paralelo que dele derivara para o amor cortês.
Este amor platónico perdeu o poder da sublimação espiritual e está mais próximo do velho mau-olhado medieval.
A imagem que se lhe associa oscila entre a forma do Cupido feminino na inversão da presa que se torna caçadora e do Cupido cego, de conotações mortíferas e demoníacas.

Mas, Giambattista della Porta é um físico alquimista, crente nas possibilidades de controlo do homem sobre a natureza e, por isso, o seu Cupido se é maligno, não o deve a quaisquer motivos morais. Tornou-se um mero efeito físico de doença, explicada racionalmente por processos de doutrina medicinal, da qual nos podemos livrar com uma simples purga dos fluidos do corpo.
O tempo da contemplação poética deu lugar à virtude do controle do corpo; o que se perde em poesia ganha-se em pragmática utilitária.
Veremos como essa sobreposição do humano à fatalidade da sina também se irá desenvolver por dissolução dos limites dessa mesma humanidade.

Imagens: 1-Amor Carnalis, pormenor de gravura alemã, c.1475
2-Giotto, S. Francisco de Assis, alegoria da Castidade (1320-25)Cupido cego (denominado Amor), juntamente com o seu companheiro –nu Ardor- a serem expulsos da Torre da Castidade pela Morte e pela Penitência.

Ver:
Michael CAMILLE, The Gothic Idol, Ideology and Image-Making in Medieval Art, Cambridge New Art History and Criticism. Cambridge & New York: Cambridge University Press, 1989.
Erwin PANOFSKY, Estudos de Iconologia. Temas humanistas na arte do renascimento, Editorial Estampa, Lisboa, 1986.


  • delicioso.Obrigada pela divulgação desta matéria. Bom f.s.Bjs e :)

    By Blogger TMara, at 07:37  
  • para ti também

    By Blogger zazie, at 10:23  
  • Belo "post".
    Num plano diferente, o misógino Alphonse Karr definia o amor como «a única caçada em que o caçador se entretém a fingir que é a caça». Que me perdoem a Zazie e as Visitas Femininas deste blogue. Mas foi ele que disse, não fui eu...

    By Blogger Paulo Cunha Porto, at 09:01  
Enviar um comentário
<< Home

zazie

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
  • rodapé ligeiramente inútil
    • "Os animais dividem-se em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães soltos, h) incluídos nesta lista, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo, etc, m) que acabam de partir o jarrão, n) que de longe parecem moscas"
    Listed on BlogSharesAdd to Technorati Favorites
  • Blogue alojado na plataforma Vilar-de-Perdizes.versão 2.0. hospedagem ao cuidado da sub-comandanta Paulinha Bonaparte ©