cocanha



; antes risos que prantos escrever, sendo certo que rir é próprio do homem [Rabelais]

porcalhões e gaiteiros

27.5.06

[um deslinque por deslize todos os temos. Aproveita-se a ocasião para repor aqui uma porcalhada com dupla dedicatória-
Aos nossos
porquinhos de estimação e ao gaiteiro (salvo seja) do Luís Rei ,a quem há três anos foi oferecido o bácoro e a sanfona].


Por tradição ancestral a gaita-de-foles sempre foi associada à provocação sexual. O tema populariza-se na Idade Média na literatura e na iconografia jocosa.

O termo "gaiteirice" prende-se com estes costumes e vemo-lo aplicado à luxúria desbocada dos loucos, dos velhos e das velhas afoitos a críticas e penitenciais da Igreja, por força da insistência no gozo.

De um modo mais descomprometido, os tocadores de gaita-de-foles fazem parte das festas do riso saudável e desbragado das patuscadas populares, acompanhadas de bebida e muita outra diversão.

Gil Vicente e Camões referem-no a propósito dos tempos soturnos trazidos pela Inquisição. A "apagada e vil tristeza" que já aparecera no Triunfo do Inverno vicentino:

Em Portugal vi eu já
Em cada casa pandeiro
E gaita em cada palheiro;
E de vinte anos a cá
Não há hi gaita nem gaiteiro,
A cada porta hum terreiro,
Cada aldeia dez folias,
Cada casa atabaqueiro;
E agora Jeremias
hé nosso tamborileiro.
Só em Barcarena havia
tambor em cada moinho,
E no mais triste ratinho
S'enxergava uma alegria
(Gil Vicente, Triunfo do Inverno).

Amores e calores fora de época parece que sempre atacaram em todas as épocas. Gil Vicente não os poupou nas suas sátiras:

Moça "Já perto sois de morrer. Donde nasce esta sandice que, quanto mais na velhice, amais os velhos viver? E mais querida, quando estais mais de partida, é a vida que deixais?
Velho "Tanto sois mais homicida, que, quando amo mais a vida, ma tirais. Porque meu tempo d'agora vai vinte anos dos passados; pois os moços namorados a mocidade os escora. Mas um velho, em idade de conselho, de menina namorado... Oh minha alma e meu espelho!
Moça "Oh miolo de coelho mal assado! (...)

A badalhoquice da velha era ainda mais caricata, estando na base da inversão da Tempo e da Ordem nas festas do solstício de Verão, em que o tema da Serração da Velha se inscreve.

Velho " Estas velhas são pecados, Santa Maria vai com a praga! Quanto mais homem as afaga, tanto mais são endiabradas!
Gil Vicente,O Velho da Horta

No Triunfo do Inverno, tragicomédia concebida como uma assoada e festa de Maio*, a velha Brásia Caiada, faz um percurso pela serra, suportando as intempéries invernais, porque deseja casar-
com um mancebo solteiro
filho de priol d’Aveiro
e eu sua namorada
e o moço sapateiro
Porque diz o exemplo antigo
quando te dão o porquinho
vai logo có baracinho.
Ora eu cá assi o digo.
E mais quem inda s’atreve
com’eu que o posso fazer.
Que assi case eu com prazer
que vou cada vez mais leve.
-Vingando-se da morte do Inverno, a velha do charivari, acaba por desaparecer na Natureza.

retábulo Sé Velha CoimbraNo bestiário medieval o porco ou javardo, significa literalmente essa gula ou luxúria depravada. Já Santo Isidoro de Sevilha o recordava nas Etimologias: "os porcos são imundos porque se revolvem e sujam na terra à procura de alimentos". Na obra Hortus Sanitatis (1485), inspirada em Aristóteles, Jehann von Cube desenvolve a ideia da associação do porco à luxúria, referindo a precocidade sexual do animal que aos oito meses já é capaz de copular.

Os exemplários acrescentam os mesmos atributos aos macacos beberrões e a todo o tipo de gula e prazeres carnais. Representam-se com este sentido em cortejos festivos, tocando instrumentos musicais, a par de sátiros, centauros e outras figuras humanas bestializadas e em despique com os homens selvagens.
Nestas gaiteirices, a gaita-de-foles parece ter esse específico significado sexual. Arcipreste de Talavera, na recolha de refrães que incluiu no El Corbacho (1438), a propósito de frades e seculares dados a assediar a mulher do próximo, utiliza a frase: "dignos por us fechos de tañer la cornamusa"

Parece que a música popular e profana não se fazia apenas ouvir nas festarolas e touradas nos adros das igrejas. A confecção simples e pouco dispendiosa deste instrumento musical, levava a que muitas paróquias usassem a gaita no lugar do órgão.

Oviedo

O Louco ou bufão, termo de origem toscana, significava o chocalheiro, o bobo por cuja boca saem os disparates, venenos, malícias e todo o tipo de licenciosidades que servem para entreter os ignorantes e indiscretos, como foram definidos por Sebastián de Covarrubias no século XVII.
O bufo que diz coisas vãs e cujas palavras leva o vento representa também as cabeças aéreas, a razão adormecida. Este personagem domina grande parte da cultura satírica medieval, prolonga-se nos tempos modernos, numa confluência entre o erudito e o popular.
Da Nave dos Loucos de Sebastian Brandt ao Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, passando pelas trovas populares e teatro vicentino, o louco é o antecessor do palhaço pobre dos tempos modernos.
O efeito escatológico das suas provocações tanto actua nas festas populares, feiras e vagabundagens de saltimbanco, como o promove a bobo de corte em meados do século XIV.
Nas cidades multiplicavam-se as companhias de loucos com ordenanças e cerimónias burlescas próprias e as Festas de Loucos, dos Inocentes e do Asno servem também como momento de iconoclastia colectiva de que nos restam testemunhos iconográficos.

Na descrição de uma festa de loucos decorrida em Ecija diz-se mesmo que no meio do espectáculo se ouvia tambores e a "gaita dos loucos"
(ver Caro Baroja, El Carnaval (Análisis histórico-cultural), Madrid, 1965, p. 326.)


















Algumas representações do toque da gaita-de-foles aproximam-se de figuras metamorfoseadas (especialmente monges) cujos narizes se prolongam nos tubos da gaita ou nas flautas imprimindo-lhes um nítido carácter fálico. Noutros casos a associação sexual é mais explícita, mostrando claramente cenas de sexo contra natura ao lado dos porcos, macacos e coelhos gaiteiros.











Os tempos passam, os gostos mudam mas porcalhadas e gaiteirices não desapareceram nas brincadeiras pos-modernas. Aqui fica um grande porcalhão mais recente.


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*segundo Maria José Palla, A Palavra e a Imagem. Ensaios sobre Gil Vicente e a Pintura Qinhentista, Editorial Estampa, Lisboa, 1996.

consultar também:
site dedicado a gaitas-de-foles

imagens:
- Les Très Riches Heures du Duc de Bérry, 1413.
-Pieter Brueghel o Velho, Dança de camponeses, 1556
- Pieter Brueghel o Jovem, interior de festa de casamento (detalhe), c. 1620
- Pieter Brueghel o Jovem, velho gaiteiro
- retábulo da Sé Velha de Coimbra, provocação sexual entre homem selvagem e javardo a tocar gaita
- campónio a tocar gaita, gárgula da catedral de Plasencia
-
porcos músicos- cadeiral de Santa Cruz de Coimbra;
-javardos a copularem ao som da gaita, cadeiral de Oviedo
-gravura da Reforma- "Papa doutor em Teologia e Mestre da Fé", Lucas Cranach, meados do século XVI
-Erhard Schoen O demónio a tocar gaita de foles c. 1530
- Sebastian Brandt, A Nave dos Loucos, louco gaiteiro, gravura de Dürer.
-
cena de felatio entre meninos, portal da Sé de Lamego
-menino a masturbar-se ao lado de coelho gaiteiro, capitel da igreja conventual de Vilar de Frades

- Jeff Koons, 1988, porquinhos e S. João Baptista

nota: acrescentada a gravura satírica do Papa de Lucas Cranach, graças ao BibliOdissey

Etiquetas:


  • hás-de me ensinar a tb consegui-lo! um dia portanto será bafejado..

    faz mais de um ano que te visito mas algum dia me daria pra deixar minhas im/expressões

    boa semana.

    By Blogger Fernando_Vilarinho, at 00:00  
  • muito obrigada, Fernando! vou pensar nisso. A verdade é que não tenho a menor ideia de quem vem ao Cocanha, à excepção dos que já conheço de outros lados. Não quero ter sitemeter, pois mesmo sem ele isto já é um vício dos diabos

    beijinhos e boa semana para si também

    By Blogger zazie, at 14:06  
  • Excelente e interessante artigo, com magnificas imagens. Parabéns. Estas coisas dão trabalho....

    By Blogger Gabriel, at 23:23  
  • muito obrigada caro Gabriel, de sua graça. É algum Gabriel que eu conheça?
    ehehe

    não deu assim tanto trabalho pois já estava feito. Foi só alterar umas coisas e acrescentar outras

    ";O)

    By Blogger zazie, at 00:03  
  • que mal é que eu te fiz, zazie?

    By Anonymous candida, at 17:17  
  • mal????

    como assim?

    By Blogger zazie, at 17:58  
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zazie

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  • rodapé ligeiramente inútil
    • "Os animais dividem-se em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães soltos, h) incluídos nesta lista, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo, etc, m) que acabam de partir o jarrão, n) que de longe parecem moscas"
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