Vasco Pulido Valente, no Público de hoje

Um professor de Inglês, que trabalhava há vinte anos na Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) foi suspenso por ter feito um “comentário jocoso” (ou seja, por ter dito uma graçola) sobre a licenciatura de Sócrates.
Para quem não saiba, isto não sucedeu durante a própria Ditadura, que nunca perseguiu ninguém por um “comentário jocoso” sobre Salazar (ou, por maioria de razão, sobre Caetano). Tanto quanto me lembre, o “culto da personalidade” não chegava ao extremo absurdo a que chega hoje. Muita gente ostentava um desprezo público pelo regime e o seu chefe, sem consequências de maior; e duvido que a própria PIDE levasse muito a sério as centenas de histórias que constantemente corriam sobre o “insigne Presidente do Conselho” e sobre a sua governanta e criadora de coelhos, D. Maria.
Ontem e anteontem, Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes falaram com indignação e tristeza do “ar que se respira” em Portugal: um “ar” de subserviência, oportunismo, intimidação e medo. Um “ar” que, segundo Pacheco Pereira, não se respirava no Portugal do século XIX e, segundo José Manuel Fernandes, não se respira agora em Inglaterra.
Não era preciso ir tão longe, não se respirava aqui, e há bem pouco tempo, nem com Mário Soares, nem com Jorge Sampaio. Os dois tinham aprendido à sua custa o preço da liberdade. A indiferença de Cavaco perante a transformação do poder democrático de Sócrates num autoritarismo que já nem se esconde ou se desculpa, dá implicitamente o beneplácito de Belém a qualquer abuso e vai contribuindo para calar e “alinhar” o país.
Fernando Charrua, o professor da DREN (por acaso, ou não por acaso, um militante do PSD) é o primeiro português condenado por um crime político, depois do “25 de Abril” ou, se quiserem, depois do “25 de Novembro”.
A licenciatura de Sócrates que, bem ou mal, se tornou num caso público e polémico, ocupou a televisão e os jornais durante semanas: Pior ainda: até Sócrates achou indispensável esclarecer pessoalmente o caso na RTP; e não conseguiu convencer uma boa parte dos portugueses.
Posto isto, não há nada que se diga ou não diga sobre o assunto que de longe ou de perto mereça o nome de “insulto”. Vi por aí T-Shirts , com este dístico: “Não andei na Universidade com Sócrates”. São um insulto? Se Cavaco desta vez se cala, aprova a delação colectiva como método político (quem não discutiu a história da licenciatura? Quem não se riu?) e a pena administrativa como represália legítima do Governo. Mário Soares não se calava. Jorge Sampaio também não. A responsabilidade final, de resto, está em Belém.
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Sobre o assunto, ler também ridendo castigat mores

3 comentários:

Henrique Dória disse...

Esta Margarida Moreira ( assim se chama a Duce da DREN) saiu-me melhor que a encomenda. Andou pr´aí a fazer-se de esquerda para conseguir o tacho, ela que, agora percebi,é mais ignorante "que los exes de mi carreta", como diria o Atauhalpa Yupanqui. Então torna-se guardiã do Templo dos tachos.
E não se pode exterminá-la?

Não é que eu vá com o pessoal do PSD, que pra tachos está por ali, e bate o PS aos pontos.Mas à gente decente, só lhe resta estar ao lado das vítimas da indecência.

alice disse...

Essa Margarida Moreira devia ir de castigo para os excendentários da FP.
Copiei e colei este texto no Underworld.

zazie disse...

Pois é, Alice, é mesmo um caso que dá que pensar

Mas olha que o texto do VPV está incompleto. Ainda lhe faltava um bocado