Todas as raças fantásticas são fantásticas mas parece que algumas são mais fantásticas que outras. Se umas foram fruto da imaginação e se tornaram lendárias, outras devem-se a trocas de palavras e erros de tradução.

Foi o caso dos hipocéfalos que, ao que parece, nasceram do desejo de mulheres lúbricas, confusões com cinocéfalos e de alguns enganos linguísticos.

No romance do Pseudo-Calístenes, aparecem uns seres humanos chamados “perdiz-cão” (kynoperdikes, variante de kylioperdikes). Foi demonstrado que estes termos não passavam de uma deformação de kynokerkides que significa “com-cauda-de-cão

Mais tarde, Jules Valére latiniza o nome para cynoperdices.
Entretanto, na Carta de Farasmanes(séc.X) também têm protagonismo uns tais de Conopoenos que são logo traduzidos pelos bem conhecidos cinocéfalos (cenocephali, variante de ceno nulli)

Como se não bastasse, no Liber monstrorum dá-se um autêntico festival de variantes disparatadas. São os coenopenos, conopoenos, cenopenos, cynopenos que os copistas logo se baseiam na etimologia para descreverem as raças tão exóticas.
Na carta de Farasmanes a explicação não se faz tardar: “(na Índia) nascem os cinocéfalos que nós chamamos conopoenae, têm uma crina de cavalo, dentes de javali, cabeça de cão e cospem chamas e fogo” (xiv,1).

Numa das versões do manuscrito (A), que se encontra em Paris, está escrito Quinocoephali em vez de Cinocephali; e precisamente por este detalhe que se deu a espantosa metamorfose do cinocéfalo em equinocéfalo. O tradutor interpretou-os como Equinocoephali (Hipocéfalo), uma vez que se diz que têm crina de cavalo.

A nova raça vai progredindo e na Historia de preliis a metamorfose completa-se. “De seguida a armada dirigiu-se para um lugar cheio de Cinocéfalos, tinham a cabeça semelhante à dos cavalos, eram de grande porte assim como os seus dentes, cuspiam fogo e chamas” (234, 5 ss.).

A partir daí, estes cinocéfalos cavalares passam para a literatura alemã e a iconografia alterada é acompanhada de novas represetnações figuradas.
Na ilustração do manuscrito de Munique de Ulrich von Etzenbach (Alexandreis) podemos vê-los em todo o esplendor a guerrear contra os Ocidentais.

Não consta que tenha havido reclamações por parte dos originais cinocéfalos. Até porque esses também têm uma linhagem muito rica. Um deles chegou a santo e outros parentes mais patuscos e menos conhecidos não tarda nada também vão ter direito a posar para o retrato.
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Consultar: LECOUTEUX, Claude, Les Monstres Dans La Litterature Allemande Du Moyen Age : Contribution a L'etude Du Merveilleux Medieval, Kummerle Verlag, Goppingen, 1982

imagens:1-Cinocéfalos indianos, Libre des Merveilles Marco Polo, iluminura do Mestre de Boucicot, Bibliothèque Nacional, Paris. 2- Hipocéfalos, Ulrich von Etzenbach, Alexandreis

4 comentários:

Ahab disse...

Que maluqueira, zazie!!!!

Fartei-me de rir :))))))))))

zazie disse...

eu até relinchei
ehhehe

Antónimo disse...

Tiro o meu chapéu (que contente fico por poder voltar a dar uma valente chapelada à Cocanha). Isto é uma coisinha que eu tinha lá por casa e resolvi deixar aqui - e esta outra encontrei por aí. E disto acho que vai gostar... Greeks bearing gifts...

zazie disse...

Muito obrigada Antónimo, ja´foram para os favoritos.
O site dos crocodilos não conhecia e o artigo das mulheres artificiais parece-me muito interessante (no mínimo)